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Os guerreiros de Atatürk têm a benção de São Jorge

A Turquia e os turcos vistos por quem agora lá esteve e ouviu o nome de Quaresma em cada esquina

André de Atayde

Foto AFP

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O povo turco sabe-se que são fanáticos por futebol. Apoiantes incansáveis das suas equipas, são mestres em mudanças drásticas de humor quando as coisas começam a não correr de feição. São aguerridos, barulhentos e muitas vezes, infelizmente, violentos. Diz-se, aliás, que há dois tipos de adeptos no futebol europeu, os turcos e todos os outros. Basta recuar um pouco na memória futebolística e pensar no que salta à ponta da língua quando uma equipa portuguesa tem que se deslocar a este país da Eurásia: "Epá... os turcos são doidos!". Podem ser, mas é coisa que lhes está no sangue. E na alma.

Há tempos estive na Turquia. Do país tinha uma ideia muito pouco definida. Sabia que muito do que é hoje se deve a Atatürk, um militar-intelectual-revolucionário nascido em Salónica, na altura território do Império Otomano, hoje Grécia. Sabia que quando nasceu, em 1881, tinha apenas um nome: Mustafa. Soube que aos 12 anos foi para a academia militar de Istambul e o seu professor de matemática lhe acrescentou um segundo nome, Kemal, ou "perfeição", pelas suas excelentes aptidões académicas. Li, durante a viagem de avião, que Mustafa Kemal liderou a guerra de independência turca, libertando o que hoje é a República da Turquia do domínio otomano e que o mesmo Mustafa foi o seu primeiro presidente, de 1923 a 1938, ano da sua morte.

Como curiosidade, no mesmo texto faziam referência a um casamento que durou dois anos, de 1923 a 1925, e onde diziam que tinha adotado 12 filhas e um filho (sem certezas de esta informação ser correta). Por fim, que o nome Atatürk - "pai dos turcos" - foi auto atribuído em 1934, quando introduziu os apelidos no país.

Quando tomou posse, em 1923, a sua primeira ordem de trabalho passou pela modernização do país, estudando os governos ocidentais e adaptando essas ideias à Turquia, estabelecendo desde logo uma política de secularização. Aboliu o califado, fechou escolas teológicas, o país começou a reger-se por códigos legais europeus, baniu o véu islâmico para as mulheres, substituiu o albafeto árabe pelo latino e eliminou a proibição islâmica do consumo de álcool - veio a morrer de cirrose hepática.

Istambul é moderna. Apesar dos atentados dos últimos tempos os turcos saem à rua, enchem praças e esplanadas como se quisessem dizer a quem lhes quer mal que nada os conseguirá deitar abaixo. É o tal espírito combativo que derrubou o Império Otomano. A mensagem é clara: nada conseguirá derrubar as mesquitas ou os terraços virados para o Bósforo. Nada amedrontará os pescadores desportivos que, dia e noite, buscam o peixe na Ponte Gálata. O pôr-do-sol com vista para o rio continuará a ser impressionante e o caos do Grande Bazar continuará caótico. O café turco terá sempre borras e os gatos, os muitos gatos que habitam a cidade, continuarão ser respeitados. As 'baclavas' continuarão a ser doces e feitas à mão e ouvir-se-á gritar "Quaresma!" sempre que passar um português na rua. Os turcos são assim.

Como se o espírito combativo e iluminista de Atatürk não bastasse, a isso junta-se um santo - São Jorge, também ele guerreiro. Segundo a lenda, Jorge terá nascido na antiga Capadócia, no ano de 275, e foi militar . Verdade ou não, certo é que na vila de Göreme há uma casa que se diz ser onde ele viveu e serviu de cenário para uma novela brasileira, a "Salve Jorge". Certo também, é que num dos restaurantes da vila havia uma fotografia do dono com a atriz Cléo Pires, que fez parte do elenco. Mais certo ainda, e que pode autenticar a capacidade de resistência dos turcos, é a música de Jorge Ben, "Jorge da Capadócia".

Armas de fogo, meu corpo não alcançará
Facas, lanças se quebrem, sem o meu corpo tocar
Cordas, correntes se arrebentem, sem o meu corpo amarrar
Pois eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge

Se lermos esta estrofe com atenção percebemos que a Turquia nunca será um adversário fácil no Euro 2016. Se cada um dos onze jogadores que entrar em campo pensar que veste as roupas de Jorge, dificilmente sofre qualquer tipo de contrariedade. Além disso a música foi escrita por um brasileiro e bem sabemos como são "bons de bola" lá do outro lado do Atlântico. São Jorge foi o santo padroeiro de Portugal até 1640, é verdade, altura em que foi substituído por Nossa Senhora da Conceição, mas a lenda não diz que nasceu no Alentejo ou no Minho e, parecendo que não, a relação umbilical pode fazer a diferença na altura de "dar um empurrão".

Resumindo: de um lado temos as ideias modernas de Atatürk, do outro a inspiração divina de São Jorge. Um povo que tem sofrido atentados sangrentos mas que continua de cabeça erguida. É o sangue, o suor e são as lágrimas. É a resistência, a determinação e o fanatismo. A superação e o receber com um sorriso na cara. É música que se ouve na rua. É o Euro 2016 e é o jogar para ganhar! Está no sangue.