Euro 2016

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Buffon, o herói solitário de um jogo coletivo

O Europeu arranca hoje e no meio de todas as estrelas e jovens promessas há um velho lobo que teima em continuar a jogar. Por amor.

Nelson Marques

Foto Claudio Villa/Getty

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Now I think I'm going down to the well tonight
and I'm going to drink till I get my fill
And I hope when I get old I don't sit around thinking about it
but I probably will

Yeah, just sitting back trying to recapture
a little of the glory of, well time slips away
and leaves you with nothing mister but
boring stories of glory days

Glory days well they'll pass you by
Glory days in the wink of a young girl's eye
Glory days, glory days

Foi só na véspera da final da Taça da Liga que nos lembrámos: "Amanhã temos de ir a Coimbra ver o jogo!". Estávamos no Rock in Rio, a cantar em coro os "Glory Days" de Springsteen com uma multidão que não caberia no estádio da Luz. "É isso, temos de ir amanhã ver o jogo". Era a derradeira oportunidade para celebrar uma época de sonho, que culminara com a conquista mais difícil e saborosa do Benfica nestes anos que a nossa memória alcança.

Nenhum de nós imaginava então que aquela seria também a última oportunidade para ver jogar Nico Gaitán com o manto sagrado. Não fomos a Coimbra porque não conseguimos os bilhetes para o jogo. E, ao final da tarde do dia seguinte, quando vimos as lágrimas correrem no rosto do mago argentino, lamentámos não estar lá a chorar com ele e nos despedirmos: "Que grande eres, Nico! Hasta siempre, Zurdo!"

Vem isto a propósito de Gianluigi Buffon, o histórico guarda-redes italiano, o mais internacional dos jogadores transalpinos: 156 jogos com a camisola "Azurra". Uma das piores coisas da vida é quase nunca sabermos quando é a última vez do que quer que seja, lembra-nos Javier Marías. E ainda que Gigi aponte baterias ao Mundial na Rússia, que seria o seu sexto ("é algo que quero porque ninguém o fez"), este será seguramente o seu último Europeu.

Em 2020, terá 42 anos e em Itália já desponta aquele que é apontado como o seu sucessor, outro Gianluigi, de apelido Donnarumma, que esta época, com apenas 16 anos, se tornou o mais jovem a defender a baliza do AC Milão.

Foi há quase duas décadas a estreia de Buffon na seleção, em outubro de 1997, tinha ele 19 anos. Era o playoff de acesso ao Mundial de França, contra a Rússia, e Gigi entrou à meia-hora de jogo para substituir o lesionado Peruzzi. No final de uma atuação brilhante, que contribuiu para o empate a 1 com a Rússia, uma jornalista russa perguntou-lhe se acreditava que um dia poderia ser o melhor da história depois do soviético Lev Yashin, o único guarda-redes a ganhar a Bola de Ouro. "Quem lhe disse que não poderei vir a ser melhor do que ele?", respondeu o jovem italiano.

Mais tarde, sorriu ao recordar esse episódio. "Confesso que sinto um pouco de vergonha pela pessoa que era e que já não sou. Mas, ao mesmo tempo, percebo que aquele descaramento também foi a minha força, permitiu impor-me".

Quase 20 anos depois daquele dia, o guarda-redes não dá sinais de abrandar. "Sou um homem, mas sinto-me um rapaz. Às vezes olho à volta e sinto que tenho mais objetivos que os jovens". Chega a França depois de uma das melhores épocas da carreira, conquistando o quinto título consecutivo com a Juventus, após um início desastroso.

Num ano em que a revista "France Football" o considerou o melhor guarda-redes da história do futebol, em que se tornou o segundo jogador italiano com mais jogos nas competições europeias (139) e em que bateu o recorde de mais tempo sem sofrer um golo (974 minutos) na liga italiana, uma série que demorou quase 11 jogos completos e que só foi interrompida da marca de grande penalidade.

Depois de bater o recorde, Buffon, que começou a jogar no meio-campo, escreveu uma carta à baliza pela qual se apaixonou num misto de "tédio, curiosidade e vaidade" depois proezas do camaronês N'Kono, no Mundial de Itália, em 1990.

"Tinha 12 anos quando te virei as costas, negando o meu passado para te garantir um futuro seguro. Decidi com o coração. Decidi com o instinto. No dia em que deixei de te olhar de frente foi o dia em que comecei a amar-te. A proteger-te. A ser a tua primeira e última linha de defesa. Prometi fazer tudo para não voltar a ver-te de frente. Ou que o faria o menos possível. Foi doloroso cada vez que o fiz, virar-me e perceber que te tinha desiludido. Uma e outra vez. Fomos sempre opostos mas complementares, como o sol e a lua. Forçados a viver lado a lado sem nos podermos tocar. Companheiros para a vida, uma vida que nos nega todo o contacto. Há mais de 25 anos fiz o meu juramento: jurei proteger-te. Olhar por ti. Um escudo contra todos os inimigos. Pensei sempre no teu bem-estar, pondo-o à frente do meu. Tinha 12 anos quando virei as costas à minha baliza. Continuarei a fazê-lo enquanto as minhas pernas, a minha cabeça e o meu coração permitirem".

Ao lê-lo, percebe-se que não poderia ter jogado noutra posição. "Cada um de nós nasce com um destino e o meu era converter-me em Gianluigi Buffon, il portiere". Mas também se percebe que ele é muito mais do que um mero jogador de futebol. Filho de uma lançadora de disco e de uma halterofilista, podia ter sido filósofo como Camus, que foi guarda-redes do Racing Universitaire de Argel e que um dia disse que no futebol tinha aprendido tudo o que sabia sobre a moral humana. Ou romancista como Nabokov, que defendeu a baliza do Trinity College durante o seu exílio em Cambridge e que nas suas memórias exorta "essa arte galante que esteve sempre rodeada de uma aura de glamour singular".

Buffon está há 15 anos na Juve, um feito tão raro nos dias de hoje que já poucos lembram que foi no Parma que começou (a transferência, em 2001, é ainda hoje a mais cara de sempre para um guarda-redes, mais de 50 milhões de euros). Tornou-se um daqueles jogadores que se confundem com um clube, de tal modo que não o abandonou mesmo quando este, envolvido num escândalo de corrupção, desceu ao abismo da segunda divisão, em 2006.

Enquanto jogadores como Zlatan Ibrahimovic, Patrick Vieira e Fabio Cannavaro, e o próprio treinador Fabio Capello, abandonaram o clube para continuarem na elite do futebol, ele decidiu ficar, jogando em campos onde, por vezes, só havia 300 espectadores. "Era um homem feliz. Tinha acabado de ganhar um Mundial e o futebol deu-me a oportunidade de mostrar que tipo de pessoa era: queria fazer felizes milhões de adeptos e conquistar o respeito das pessoas como homem, não apenas como futebolista", explicou anos mais tarde ao "El País"

O abismo já lhe era um lugar familiar. Três anos antes, depois de ter perdido a primeira de duas finais da Liga dos Campeões, num desempate por grandes penalidades contra o Milão, onde até defendeu dois remates, Buffon enfrentou uma depressão. Tinha-se tornado o único guarda-redes a ser considerado o Futebolista do Ano pela UEFA, mas só por fora mantinha uma aparência normal. Sentia-se doente por dentro, as pernas tremiam-lhe incontroladamente, tinha medo de entrar em campo. Não era algo de que pudesse falar abertamente num balneário ou em público. "Se tivesse dito 'Vou afastar-me durante dois meses para ficar melhor' estaria acabado. Porque, depois disso, sempre que falhasse uma defesa, seria recordado por isso".

Foi um período negro, mas recuperou com a ajuda de um psicólogo. Meses mais tarde, no Euro 2004 em Portugal, depois do "jogo horrendo" com a Dinamarca, que terminou empatado a zero, era aquele homem de olhar azul cristalino, expoente da sóbria elegância italiana, o único a sorrir no relvado. Estava recuperado.

Gigi não é excêntrico como foram Higuita ou Jorge Campos, não marca golos como Rogério Ceni ou Chilavert, não faz defesas para a fotografia quando pode agarrar a bola sem grande esforço. Mas aquilo que ele faz ninguém faz melhor: foi considerado o melhor guarda-redes dos últimos 25 anos, segundo a Federação Internacional de História e Estatística do Futebol. É o epíteto da águia solitária, do homem misterioso, do último defesa, de que fala Nabokov nas suas memórias. O herói solitário num jogo coletivo. Apesar das muitos dias de glória, mantém-se um tipo simples. É talvez, nas suas próprias palavras, "o único futebolista que não tem interesse em carros" (conduz um Lancia Y). E anda sempre com uma seringa no bolso para o caso de ser picado por uma abelha, porque é alérgico.

Não importa que nunca tenha ganho uma Liga dos Campeões ou um Europeu de futebol, ou que, em 2006, tenha visto fugir para o compatriota Fabio Cannavaro a possibilidade de se tornar o primeiro guarda-redes depois de Yashin a ganhar a Bola de Ouro. Quando olha para as fotos que lhe tiram, quase sempre de corpo esticado a voar para uma bola, quase nunca com os pés no chão, vê uma metáfora da sua própria vida. "É esta a minha forma, estar no ar", admite. "Os meus pensamentos estão no ar. Estou sempre a sonhar".