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É ter Portugal aqui

Euro-2008: a Suíça, os portugueses, a chuva e o calor de quem partiu e deixou a pátria para trás

Sara Antunes de Oliveira

Foto Patrik Stollarz/Getty

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A memória de quem se cruza e fala com muitas pessoas todos os dias não permite que me lembre dos nomes. Lembro-me das caras, do jeito e, sobretudo, de uma alegria difícil de compreender por quem vive confortavelmente perto da família, da terra, das raízes.

Foi um dia de muito calor em Basileia. A 15 de junho de 2008, Portugal perdeu com a Suíça no jogo de despedida da seleção anfitriã, já eliminada. Não fazia grande diferença: o primeiro lugar do grupo e o acesso aos quartos-de-final do Campeonato da Europa já estava assegurado.

À porta do quartel-general da seleção portuguesa em Neuchâtel, um enorme grupo de adeptos em festa começou a juntar-se cedo. Chovia copiosa e surpreendentemente, sobretudo para quem tinha passado um dia de verão a pouco mais de 100 quilómetros. Daqueles dias de Verão que pedem sandálias, agora ensopadas em pés gelados. Os meus.

Entre os milhares que esperavam para ver o autocarro da equipa estava um casal com mais de 50 anos. 60, talvez. Não sei se já os tinha visto antes, mas é provável. Havia sempre muitas caras repetidas nos dias de festa e, naquela altura, Neuchâtel já era um bocadinho a nossa casa também. Estava à espera de entrar de novo em direto na SIC Notícias quando ele me tocou no braço. Era um senhor baixinho, cabelo grisalho, camisola das quinas. Ele puxou-me, ela falou: "se continuares assim, vais ficar constipada". Só percebi quando vi as sapatilhas que ela trazia na mão. "Temos uma filha que deve ser mais ou menos da tua idade. Fomos buscar isto a casa, tens os pés todos molhados. Calça, vá."

Não foi o tom familiar que me deixou sem palavras, porque não era a primeira vez que me sentia filha, neta, prima, família de alguém em Neuchâtel. E também não era por ter cara de miúda a quem mais facilmente se trata por tu. Ali, as equipas de reportagem vindas de Lisboa e do Porto eram um bocadinho de Portugal mais perto para quem está sempre longe.

Se um campeonato europeu ou do mundo para um país apaixonado por futebol é sempre um acontecimento que põe todos a torcer pelo mesmo lado (essa coisa rara), percebi logo à chegada que, para a comunidade emigrante, ter a seleção ali tão perto era muito mais que "a festa do futebol". Era poder exibir todos os dias o orgulho de ser português, com cachecóis nas janelas, nos carros ou presos às carteiras das senhoras; era ter um motivo único para sair de casa a cantar, o hino ou outra coisa qualquer, porque Portugal tinha vencido ou porque Portugal tinha perdido mas era Portugal na mesma; era a oportunidade de resistir à aculturação, ao esforço para se sentirem em casa quando a casa, mesmo, está tão longe.

Falar português ou ter o logótipo de uma empresa portuguesa colado no carro ou bordado no casaco era sempre passaporte para um cumprimento caloroso, um grito do outro lado da rua, um abraço repentino ou uma palmada certeira nas costas. Os jogadores nunca sentiram esse "aconchego" mais "direto", mas não lhes faltou apoio, familiaridade e amor de quem partilha um laço único.

Houve festa em todos os treinos, todos os jogos. Os bons e os maus. Mesmo quando o autocarro voltou para Neuchâtel com uma equipa derrotada pela Alemanha, no jogo seguinte. Mesmo quando os adeptos ficaram em choque com a notícia de que Scolari, o homem que quase tinha dado ao país o título de campeão europeu 4 anos antes, ia para Inglaterra treinar o Chelsea.

"Nunca vi uma coisa assim", disse-me ele, braço dado com a mulher com quem casou já na Suíça "há quase 30 anos". Não cansa estar tantas horas à espera só para aplaudir um autocarro que demora uns tão curtos 2 minutos a passar? "Não, não! Tu não percebes. Isto é ter Portugal aqui."

Não calcei as sapatilhas, envergonhada pelos meus pés sujos e encharcados, e acho que não os voltei a ver. Mas passei a querer muito mais que Portugal chegue a todas as fases finais de todos os campeonatos, só para haver mais Portugal lá, seja onde for.