Euro 2016

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França: Egalité, Fraternité, Liberté - e Benzema

O nosso correspondete em Paris escreve sobre a seleção francesa que entra em cena daqui a umas horas (20h) no jogo de abertura do Euro 2016. Há um jogador proscrito, um país em que a extrema-direita avança e um seleccionador acusado de ceder ao racismo.

O senhor sentado à direita de Deschamps não está - mas é dele que se fala

Foto MARTIN BUREAU/Getty

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A seleção francesa é conhecida por dois nomes – os tricolores e os “bleus” (azuis). Vão entrar em cena no jogo de abertura do Euro, no Estádio de França, em Saint-Denis (arredores de Paris), nesta sexta-feira à noite, com alguns “blues” (mágoas) na alma.

O maior e mais sério dentre eles está relacionado com a estrela francesa, Benzema, a política e a força que a Frente Nacional (partido nacionalista e populista de Marine le Pen) tem em França, onde está à frente das intenções de voto para a primeira volta em todas as eleições nacionais francesas.

Com efeito, Benzema (atacante do Real Madrid), foi afastado da seleção oficialmente por estar implicado num escândalo (chantagem com um vídeo de sexo) envolvendo amigos seus e Valbuena, um outro internacional também afastado da equipa tricolor. O problema é que Benzema, o avançado centro que até este Euro tinha lugar firme no onze tricolor, contesta a decisão por ainda nem sequer ter sido acusado e muito menos julgado nesse caso e evocou a ingerência do poder político nas escolhas dos futebolistas pelo selecionador. Fez mesmo mais do que isso: disse que foi afastado porque o treinador Didier Deschamps se deixou influenciar pela opinião pública e, sobretudo, pela força da extrema-direita em França.

Acontece que, de facto, Benzema sempre foi muito atacado por dirigentes da Frente Nacional que o acusavam de nem sequer cantar o hino nacional em coro com os colegas antes do início dos jogos. Este “caso Benzema” deu que muita polémica porque antes dele, o antigo jogador de futebol, Eric Cantona, tinha partido a louça toda ao acusar Deschamps de racismo por designadamente também não ter selecionado um outro avançado, Ben Arfa, atualmente em grande forma.

As feridas deste caso ainda não foram curadas porque, na realidade, a equipa de França tem sido no passado regularmente muito atacada por setores extremistas por ter “demasiadas pessoas de cor”, incluindo a que ganhou em 1998. Na equipa afirma-se que este assunto já foi ultrapassado e diz-se que, a poucas horas do inicio do Euro, apenas se pensa no futebol e na competição.

Durante os dias da polémica, os jogadores foram aconselhados a não falar sobre o assunto, mas um deles, um dos mais jovens, Kingsley Coman, negro e que fará 20 anos a 13 de junho, não acatou os conselhos e declarou, em defesa do selecionador: “há muitos jogadores com cores e origens diferentes na equipa de França e não compreendo – Deschamps será racista nuns casos e não noutros?”.

Nesta sexta-feira, milhões de franceses vão seguir o jogo França-Roménia. Se a equipa jogar bem e ganhar não se falará mais sobre a polémica, pelo menos durante algum tempo. Se acontecer o contrário, se perder, a bomba Benzema e Ben Arfa voltará a rebentar e com grande estrondo.

  • França-Roménia, ou um jogo do 1x2

    À partida, o jogo de abertura tem tudo para correr bem aos franceses, que são melhores e têm melhores jogadores, como Pogba ou Griezmann. Mas, nos últimos cinco encontros contra os romenos, os gauleses só ganharam um e empataram quatro