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Hoje há jackpot!

"O coração também respira" é uma coleção de histórias de ficção de Jorge Araújo, que são crónicas do quotidiano com gente e futebol lá dentro.

Jorge Araújo

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Todos os dias, Abel passa religiosamente os olhos pelo Correio da Manhã. Mas há um par de edições que salta as páginas num ápice - não gasta neurónios com os problemas da Cláudia Jacques e do marido burlão, nem fica a babar com as fotografias da colombiana que dançou coladinha ao Ronaldo, nas mini-férias em Ibiza. Lê o jornal na diagonal, só as notícias da bola o fazem parar um instante. Um homem tem de estar informado, precisa de assunto para alimentar uma conversa.

Mas as páginas dos classificados são tudo o que lhe interessa. Entre anúncios de motas e carros à procura de novo dono, de cavalheiros em busca de senhora para relação séria e de fotografias de mulheres a jurarem prazeres, encontra finalmente o que procura: “Professor Bambara, astrólogo africano reconhecido internacionalmente, resolve todos os seus problemas de dinheiro, amor e inveja. Solução garantida.”

Abel não queria acreditar no que os seus olhos liam. Beliscou os braços com força para ter a certeza de que não estava a ser traído pelo aumento das dioptrias. O anúncio já gasto de tanto ser admirado e ele com os olhos ainda esbugalhados de curiosidade. Como é que podia adivinhar que o preto, perdão, o senhor professor, aquele mesmo que todos os dias frequentava o seu estabelecimento, era uma figura ilustre, distinta, reconhecida internacionalmente pelo seu imenso talento.

Enquanto lia e relia o anúncio, não tirava os olhos do homem. Voltou a beliscar os braços, há coisas difíceis de acreditar. Ele ali tão perto, de carne e osso, mais carne do que osso, é certo. Abel nunca tinha estado tão próximo de uma celebridade. Arrepiou-se. O amigo Vitorino é que tinha razão, pensou, o preto, perdão, o senhor professor, era mesmo uma sumidade mundial.

Por mais de uma vez, Abel aproximou-se da mesa do ilustre cliente. Queria que se sentisse em casa, assegurar que nada lhe faltava, queria dizer-lhe que, tal como ele, acreditava que o preto, perdão, o Éder, ainda nos daria muitas alegrias no Europeu. E não dizia isso por causa do que lera no anúncio do Correio da Manhã. É que contra factos não há argumentos – então não é que o preto, perdão, o Éder, o patinho feio da selecção que não acertava nem quando a bola lhe batia na canela, desatara a marcar golos? A proeza contra a Estónia era o melhor dos comprovativos.

Abel não chegava a encetar conversa, desistia antes dos preliminares, com receio de ser mal interpretado. Mas não havia nada a fazer, era mais forte do que ele, voltava a abeirar-se da mesa, era mais fatal do que o destino, tinha de lhe falar.

- Está tudo a seu gosto, professor? – finalmente, a conversa com guia de marcha.

O guineense não estava habituado a este tipo de cortesia. Nunca na vida lhe haviam chamado professor, a não ser, é claro, nos anúncios do Correio da Manhã, mas isso tinha-lhe saído do bolso. Os salamaleques de Abel deixaram-no desorientado, não sabia muito bem o que dizer.

- Está tudo bem – respondeu, finalmente, num português de erres carregados.

Abel aproveitou a deixa e nunca mais se calou. Falou da chuva e do bom tempo, da crise dos refugiados e das promessas não cumpridas dos políticos, das últimas do professor Marcelo. Até da polémica das barrigas de aluguer e das 35 horas de trabalho. Dissertou sobre o que sabia e o que não sabia, verbos sem bússola. No fundo, queria apenas apalpar terreno - tinha um pedido muito importante para lhe fazer.

- O professor não tem nenhum número para me aconselhar…sabe, hoje há jackpot no Euromilhões…

A mulher forrada de luto continuava a acariciar o terço, atracada numa mesa junto ao balcão. Naquele instante, pela primeira vez desde que frequentava o café, atreveu-se a levantar o olhar.