Euro 2016

Perfil

Não há Payet para ele

A França ganhou à Roménia (2-1) no jogo inaugural deste Europeu com uma assistência e um golo do médio do West Ham. É a primeira grande figura da competição. Só ele foi capaz de levar a bola no pé, de pé para pé, até ao pé do guarda-redes contrário.

Pedro Candeias

Foto FRANCK FIFE/Getty

Partilhar

A França é um caldeirão de contradições políticas, sociais e, no caso que nos interessa, futebolísticas. E não o é só de agora, que Benzema não foi convocado pelas razões que sabemos, mas provavalmente desde sempre. Não precisamos de recuar muito para relembrar o que se passou no Mundial de 1982, em que Larios foi expulso da equipa pelo colega Platini por andar amantizado com um dirigente da UEFA. Ou a não-carreira de Cantona e de Ginola nos bleus, o selecionador Doménech que convocava seguindo a carta astrológica, a greve no Mundial 2010, os problemas com Nasri em 2014 - e, agora, Benzema.

A França, ou melhor, o futebol francês, ou melhor ainda, a seleção francesa, tem uma tendência para o autofágica/suicida para complicar o que está descomplicado, embora aquelas duas vitórias consecutivas (1998 e 2000) contradigam o que acabo de escrever. Logo eu, que sou português e só vi o meu país ganhar em sub-21, sub-20 e por aí abaixo - e ainda assisti a duas derrotas em casa contra os gregos.

Só que a França é um país muito maior e mais rico e mais influente e por isso tem mais a perder do que Portugal quando ambos são postos perante o mesmo cenário: receber uma competição para a qual tiveram o tempo todo do mundo para a preparar. E podemos arrancar pela cerimónia de apresentação deste Euro-2016 que foi chocha e sem graça, ou pelo jogo inagural de hoje, que foi chocho e sem graça na primeira parte. Há uma explicação: esta França tem um meio-campo incrível (Pogba, Kanté e Matuidi), dois extremos incríveis (Griezmann e Payet), um avançado crível (Giroud), e uma defesa 3/4 sofrível (safa-se Evra).

Só que este meio-campo está carregado de testosterona e músculo, corre muito e para todo o lado, mas não é grande coisa a levar a bola no pé, de pé para pé, até ao pé do guarda-redes contrário. É um futebol feito de futebolistas repentistas e de contrastes e isso influencia a estratégia (contra-ataque) e o estilo (direto). Ou seja, a França em que o selecionador francês jogava tinha-o a ele, a Petit, a Vieira ou Desailly, e... tinha Zidane. Ou Djorkaeff. Ou Pires. Nesta equipa gaulesa, só Payet é rapaz para driblar, tabelar, procurar outra solução que não seja o passe em profundidade, nas costas dos defesas; basicamente, só Payet pensa o jogo.

Por isso, na segunda parte, Deschamps foi esperto e pô-lo a vagabundear nas costas de Giroud e a equipa mudou para melhor. Porque era melhor. E para alguma coisa estes números tinham de servir: nove triunfos nos últimos 10 jogos; 13 golos marcados nos últimos quatro; sete golos de Giroud nos últimos cinco dele. O que aconteceu? Golo de Giroud, assistência de Payet. Só que havia outra estatística, mais escondida, a ensombrar os milhares de gauleses no Saint-Dennis: seis golos sofridos nos últimos quatro. Obviamente, Varane, que se lesionou, faz falta. E numa falta de Evra sobre Stanciu, o craque dos romenos, houve penálti e Stancu fez a igualdade. Aquela velho fantasma que diz que que o anfitrião do torneio sofre por antecipação e treme no jogo de abertura começou a materalizar-se e a ganhar forma, enquanto a França tremia e perdia a cabeça. Isto só lá ia com um lance individual, um rasgo qualquer vindo do lugar de onde todos estavam a brotar: da cabeça de Payet. Foi num remate daqueles, a fazer lembrar os golos (de livre) pelo West Ham, que o número oito deu o triunfo aos gauleses.

Payet é a primeira grande figura deste Euro.

Partilhar