Euro 2016

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Os árbitros também são convocados, por Duarte Gomes

O antigo árbitro e comentador da SIC Notícias explica os processos de seleção pelos quais passam os juízes de jogo até chegarem a uma competição como esta. Testes físicos, táticos e técnicos, cuidados com a alimentação e descanso. E um selecionador intransigente.

Duarte Gomes

Collina, o selecionador internacional da arbitragem

Foto MARTIN BUREAU/Getty

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Hoje vou falar-vos do Euro 2016. Não dos jogos da nossa seleção ou da sua inegável dimensão. Não de ambições ou de qualificações. Não de jogadores de eleição ou de potências europeias de exceção.

Hoje a viagem que vos proponho é outra.
Hoje quero levar-vos a conhecerem a vigésima quinta equipa apurada. A outra equipa. Venham daí...

Comecemos pelo princípio.

15 de Dezembro de 2015.O Comité de Arbitragem da UEFA anuncia os árbitros selecionados para o Campeonato da Europa 2016. Praticamente meses antes do início da competição.

Eram muitos os que sonhavam a chamada "à seleção" dos melhores. Sim. Porque os árbitros também têm ambições desportivas. E assim como qualquer jogador tem o sonho de representar o seu país, os árbitros também acalentam esse desejo. O de poder estar presente numa grande competição internacional, elevando bem alto o orgulho de uma nação e a auto-estima de um povo, por estes tempos sedento de méritos além-fronteiras. Compreensivelmente.

O selecionador aqui foi outro. Chama-se Pierluigi Collina e, ao contrário dos outros vinte e quatro técnicos, só teve a possibilidade de escolher dezoito "atletas". Não vinte e três, mas dezoito.

Dezoito árbitros principais e respetivos árbitros assistentes e assistentes adicionais (que conhecemos vulgarmente como árbitros de baliza), num total de noventa e quatro elementos.

É esse o número final dessa tremenda equipa.
Tal como acontece com todas as seleções que garantem a sua qualificação por força do seu mérito desportivo, também para uma equipa de arbitragem a indicação para uma das maiores provas do planeta é um marco histórico na carreira. É, muitas vezes para alguns (poucos), o culminar de muitos anos de dedicação e amor à camisola. De preparação e trabalho. De sacrifício e de escolhas difíceis.

A escolha foi anunciada atempadamente para que a preparação de cada um dos eleitos fosse planeada com tempo e qualidade. Com profissionalismo e competência. Essa sempre foi e é a marca de água da UEFA.

Feita a seleção, era tempo de pôr mãos à obra.
Motivados pelo orgulho e reconhecimento, entre Janeiro a Abril deste ano, os árbitros e as suas equipas entregaram-se ao trabalho. De corpo e alma. Com muito corpo e com muita alma.

Além das competições domésticas e das provas europeias de clubes que tiveram que dirigir nesse período, havia agora que cumprir um conjunto de exigências solicitadas pelo Comité da UEFA.

Nesse período, as dezoito equipas de arbitragem realizaram um plano de trabalho muito exigente, sob o ponto de vista físico, técnico e tático. No rigor posto em prático, não faltaram sequer cuidados com a nutricão, com a atenção aos períodos de descanso e com exercícios exaustivos de prevenção de lesões. A este nível, ao nível dos melhores e para dirigir os melhores, nada é fruto do acaso e tudo é pensado e executado atempadamente, com o máximo pormenor, até ao mais pequeno dos detalhes.

Em Abril, quatro meses depois de iniciarem esta caminhada, reuniram-se pela primeira vez nos arredores de Paris, para um seminário de preparação.

Foi o momento oportuno para que pessoas de países e culturas bem distintas recebessem uma mensagem forte, clara e universal. Aí foram sujeitos, de novo, a testes de aptidão física, a provas escritas para atestar o seu conhecimento sobre as Leis de Jogo (este ano, revolucionadas por noventa e cinco alterações) e a intensas sessões de trabalho, que incluíram visionamento de imagens em situações de jogo e apreensão das novas instruções e diretrizes.

Passada essa última etapa (todos com sucesso, diga-se), a vigésima quinta equipa fez as malas e rumou, finalmente, ao seu quartel-general em França, onde agora se encontra desde o passado dia 6 de Junho.

Em equipa. Como uma equipa.
Durante o próximo mês, viverão - com muito trabalho e entusiasmo - esta aventura. Para muitos deles, nova. Para os mais veteranos, repetida. Mas para todos, repleta de emoções memoráveis e inesquecíveis.

Com um "horário de trabalho" bem apertado, acordam por volta das 7 da manhã e só regressam aos quartos, após o fim das várias sessões de trabalho, nunca antes das 23H.

Ali, em estágio, estarão focados na tarefa e preparados a toda a hora para entrar em ação, desmultiplicando-se em treinos, em reuniões de trabalho, em análises detalhadas das equipas e jogadores. Ali discutirão as várias incidências que ocorram nos jogos, farão sessões de esclarecimento e trabalharão, ao detalhe, todos os aspetos relacionados com as equipas que forem designados para arbitrar. Ali dirão presente à chamada e farão as suas viagens rumo às cidades onde vão dirigir as suas partidas. Tudo tratado de forma imaculado e sem falhas. Não é à toa que UEFA (e FIFA) escolheram a Suiça para instalar as suas sedes. Há por alí muita precisão e rigor.

E entratanto começou a competição. Começaram os jogos. E depois da fase de grupos, tal como acontece com as equipas e seus atletas, só os que erram menos passam à fase seguinte. Só os que apresentam os melhores resultados ficam.

É a implacável escolha da competência sobre tudo o resto. Meritocracia pura. Felizmente.

Essa sucessão de partidas e permanências de árbitros acontecerá à medida que o torneio for evoluindo, até que se encontre a equipa de arbitragem, uma apenas, que terá o privilégio - único na vida - de dirigir a Final do próximo dia 10 de Julho.

Penso que é fácil de imaginar a pressão a que estão sujeitas aquelas dezoito equipas de arbitragem. É indescritível.

É a pressão da exigência e da excelência, só ao alcance dos melhores.

E penso também que agora o caro leitor pode perceber que, para os árbitros designados para as grandes competições de clubes ou seleções, os tempos não são de passeio ou de relaxe. São de puro trabalho, de busca inalcançável pelo perfecionismo, de concentração e entrega máximas e de muito compromisso, dedicação e sacrifício pessoal e familiar.

Por tudo isto, permitam-me então a sugestão: vamos viver este Euro 2016, com toda a paixão que este jogo nos desperta, apoiando a seleção das nossas cores e respeitando ao máximo as decisões de todos aqueles que, como os selecionadores e jogadores, também desejam tornar este torneio num hino ao bom futebol e à verdade desportiva.

Porque, no desporto como na vida, é tudo uma questão de atitude. E essa parte de dentro de nós.