Euro 2016

Perfil

A lei de William McCrum

Aqui se lembra o Euro-2012 e aquela linha que muitas vezes separa o início do fim: a dos nove metros e quinze cêntimetros

Foto FRANCK FIFE/Getty

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Há um copo de rum no parapeito da página, ora quieto, ora a fazer de copo, a dar de beber à folha e ao pensamento, e pelas costas da mesa duas raparigas resolvem problemas de raparigas, as suas frases são recatadas, e um casal mais adiantado na vida, em segunda ou terceira vaga de ilusão vai pela sangria em busca do tempo perdido.

O mês de julho está para entrar em campo no mundo e aqui em Donetsk, numa esplanada da florida Pushkina Boulevard, recanto verde e apaziguador, enquanto os pombos debicam pão ressesso, também a memória se faz às migalhas da história, recorrendo à escrita, procurando registar, ao virar da esquina do tempo, as últimas palavras da notícia. Ainda ontem o futebol português bateu de frente na trave de uma baliza com Casillas estendido debaixo da sorte, e ficou pelo caminho, e o futebol espanhol bateu no poste da mesmíssima baliza, depois de ter escapado por milímetros à luva de Rui Patrício, e seguiu em frente, tomando o melhor atalho para a vitória, o golo.

Ninguém treina o fator sorte. Ninguém se atreve, na grande área da superstição que o futebol habita, a exercitar o azar durante a semana. Nenhum computador resolve o assunto, nem por aproximação. E no entanto, todos, por caminhos diversos, mas com o mesmo empenho, elaboram dietas adelgaçantes para a margem de erro. A melhor silhueta tática por norma ganha o jogo. O problema é quando o jogo pode extravasar as margens do minuto noventa e deixa acabar o prolongamento sem levantar o braço do vencedor. Aí é que ela bate, redonda e aleatória, em afortunada e flagrante curva no poste, ou desesperadamente na trave, dentro e fora de esquadria.

Entre a marca de penálti da Donbass Arena, onde Portugal caiu do Europeu, e a origem do mal, há mais de um século de intervalo e uma distância de quase quatro mil quilómetros. Há uma fortuna na posse de uma família da Irlanda do Norte e há um herdeiro, William McCrum, pouco interessado no negócio do linho, raiz dessa árvore genealógica. Já se perceberá, nas linhas que a prosa vai semear a jusante, como é que o filho de um empresário abastado se transforma no pai da grande penalidade. Colocámos um copo na entrada deste regresso ao EURO 2012. É com ele erguido que nos juntamos à roda de amigos e ao brinde que assinala a fundação do Milford Everton FC. William McCrum é o guarda-redes do novo clube de futebol da cidade. É do ponto onde o jogo chora e ri, a partir da baliza, que o cavalheiro McCrum assoma. Discorda em absoluto do recurso à falta para evitar um golo feito. Redige o parágrafo que altera em definitivo o mundo do futebol nestes termos: "Se algum jogador derrubar ou agarrar deliberadamente um jogador adversário, ou se jogar a bola deliberadamente com a mão, a uma distância de onze metros da sua própria linha de golo, o árbitro deverá assinalar um pontapé de grande penalidade, marcado a onze metros da linha de golo". A imprensa da época declarou que se tratava da sentença de morte do futebol, mas o penálti passou a ser, em 1890, a lei de jogo número 13. E sobreviveu.

Remate final

Na véspera do Portugal - Espanha, surgiu, como notícia de última hora, o cancelamento do treino espanhol na Donbass Arena. A UEFA colocou os jornalistas num autocarro. O motorista tinha indicações para acelerar até ao centro de treinos Kirsha, quartel-general do Shakhtar. Não havia tempo a perder. Quando lá chegámos os futuros campeões da Europa treinavam os penáltis. Xabi Alonso bateu para a esquerda do guarda-redes. Piqué atirou para a direita. Fabregas para esquerda. Sérgio Ramos, entretido no treino a fazer o número da foca, com a bola no nariz, viria a emular Panenka no momento da decisão, diante de Rui Patrício. Foi assim que aconteceu, como a SIC mostrou, primeiro no treino e depois no jogo.