Euro 2016

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Chalana, a cassette, o contrato e o bigode

"Na Gaveta" de hoje está no Euro-84, o torneio em que o Pequeno Genial se revelou

Adriano Nobre

Pode não parecer mas Portugal deu cor ao Euro 1984

Foto STAFF/Getty

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Diz que há jogadores que estão no Europeu com a cabeça nas potenciais transferências para grandes. É um clássico. E os clássicos têm enredos clássicos. O empresário 'x' falou, o dirigente 'y' insinuou, o clube 'z' observou. Mas o jogador não comenta. Que está concentrado na seleção e que só pensa na seleção. Aquela manchete daquele jornal com o seu empresário ou familiar a dizer que ele sente isto e que o melhor seria aquilo? Rebobina a cassete: “Na seleção só se fala da seleção”.

Hoje é assim. Mas nem sempre foi assim.

Em 1984, por exemplo, Fernando Chalana, pequeno génio com bigode e fisionomia de Astérix, herói da nação benfiquista e alma criativa de uma seleção pouco habituada aos grandes palcos mundiais, teve um tratado de sinceridade nas vésperas da partida da Portugal para o Europeu que se disputaria em França.

“A minha meta neste estágio é trabalhar o mais possível para, em França, me apresentar nas melhores condições. Não escondo que procurarei obter em França um grande contrato para jogar no estrangeiro. E só por isso vale a pena esse sacrifício”, confessou ao jornal A Bola.

Saltemos o “só por isso”. “Que sacrifício?”, indagou o jornalista. “O de estar aqui em estágio onde não há motivações e onde os jogadores não estão a ser tratados como deviam”.

Em causa estava, nomeadamente, uma queixa recorrente no jogador benfiquista, que já dias antes, ao mesmo jornal, deixara clara a sua insatisfação em relação à forma como estava a ser gerida a questão das receitas dos patrocínios negociados pela FPF.

“A Federação faz sucessivos contratos com esta e com aquela empresa para publicidade à custa da imagem do jogador. Mas nós, por enquanto, não somos coisas para que possam dispor assim de nós, sem a mínima consideração pelas pessoas que somos”, reclamava.

Dois anos depois aconteceria Saltillo e a greve dos jogadores portugueses no estágio de preparação do México-86. Chalana, que bem tinha alertado para o problema antes do Euro84, não esteve nesse Mundial, devido a uma das múltiplas lesões que contraiu na sua passagem pelo Bordéus, para onde se transferiu após o fantástico Euro84 que fez. Valeu o sacrifício. E a sinceridade.