Euro 2016

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“Figo! Haxixe! Rui Costa! Cocaína!”

O futebol não é o que parece. No concerto das nações, é muito melhor. O Diretor Adjunto do Expresso (e diretor da Blitz) escreve uma crónica Rock and Roll sobre o Euro-2000

Miguel Cadete

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Não há nada como conhecer o veneno da derrota. Portugal joga em Eindhoven contra a Inglaterra no primeiro jogo da fase de grupos do Euro 2000. 18 minutos de jogo e já estamos a levar dois. Beckham era famoso, mas não era suposto ter levantado cruzamentos para dois-golos-dois, assim de seguida, ainda antes dos vinte minutos. B, meu maior amigo, criado no Reino Unido, olhava para mim com atenção regrada e também sobrecarregada, querendo dizer “eu tinha avisado”.

Cedo demais. Quando Figo chuta do meio da rua, roçando a barriga da perna do adversário mas metendo a bola na gaveta, nós ainda não sabíamos, mas o mundo estava a mudar. O meu mundo estava a mudar. Confesso que não tinha nada marcado, mas naquele instante disse que ia. Já nem precisei do golo do João Pinto em salto de peixe, nem da confirmação do Nuno Gomes, obrigatória para ganhar o jogo de virada. Foi na hora, ali, ainda antes do intervalo, que reservei alojamento e viagem para Amesterdão. Tinha que estar com aquela seleção. E fui.

Schipol, 16 de junho de 2000. Estou no meio de todos os adeptos de todas as seleções apuradas para o Euro. É o que interessa. Ainda que ninguém acredite no conceito de “turismo desportivo”. Durante a fase de grupos, todas as seleções apuradas estão representadas. Ninguém ainda ficou de fora. E isso é bom. Para o melhor e para o pior.

O turismo desportivo é uma realidade. Mas não aparece nos jornais, nas televisões, nas rádios ou na internet porque parece ficar mal. Não me peçam a hipocrisia de jurar ter ido ao Rijksmuseum por esses dias. Seia mentira da grossa! E pouco vantajosa. O meu amigo J a entrar em mais uma filial do Bull Dog e a dizer que estava pronto para produzir uma salada era, naquele tempo, mais relevante do que apreciar a “Ronda Noturna” de Rembrandt e todos os seus corolários. Claro que tenho pena. E é óbvio que não posso contar a viagem de comboio até à Banheira de Roterdão.

Porque nunca como então foi possível confirmar que a seleção de Portugal era tão bem vista. E eu andei por lá. Nunca, na rua, trajados a rigor, recebemos elogios como aqueles sobre o futebol pátrio. Não tem nada a ver com ser do Benfica, do FC Porto ou do Sporting.

E agora um parênteses: e quando, no Red Line District, os portugueses aprovavam, em dia anterior ao do jogo, a entrada de um compatriota nalguma vitrine com gritos de “Portugal” e um estridente chocalhar de cachecóis?. Nunca mais. Amesterdão 2000, quem lá esteve, esteve.

E, provavelmente, tinham razão.

Foi o ano em que, muito mais do que em 2004, a convicção ficou patente. Não esqueço o dia em que chegando – tarde, obviamente – ao alojamento escolhido (alguém, já ficou na cave do Hotel Rockit? Enviem, por favor, as vossas impressões) – recebi em tom jocoso do futuro selecionador de Portugal a boca seguinte: “este ano é que é?”. Não sabia. Mas ele foi o treinador que se seguiu. E eu não era ninguém. Mas ele sabia.

Nem hoje. Nunca na rua os adeptos das outras equipas se dirigiram aos portugueses como naqueles dias. De moto próprio, e agradecendo o futebol que praticávamos. Ó glória vã, sabemos hoje. Turismo desportivo com agraciamento, ou não, é isto mesmo. E quem não esteve lá, não vai saber o que era. Muito provavelmente, esta era a melhor seleção de Portugal de sempre. A razão porque perdemos, contra a França, não me interessa tanto. Porque ganhámos, por três a zero contra a Alemanha, já me parece mais interessante.

Antes disso, almoçámos e fomos para a estação apanhar o comboio. O J fez logo uma fita porque jurava que não saía dali sem conhecer os coffee shops de Roterdão. Os outros não queriam. Chegámos ao estádio e, como no jogo anterior contra a Roménia, o público gritava que seríamos campeões. Estavam todo cobertos de razão. Contra a Alemanha, jogámos com a equipa B e o Sérgio Conceição marcou três golos na baliza deles, mesmo em frente da bancada em que eu estava. Beat this!.

Voltei a casa, de comboio e à pressa, com dois velhinhos germânicos, enrolados nos seus cachecóis. Não disse nada. Eles sentiram tudo. Mais tarde, voltei aos europeus e mundiais que aconteceram aqui perto. Nunca mais senti a glória de ter os adeptos das outras equipas a agradecer o futebol que praticávamos. Perdemos – perdemos sempre – mas dessa vez era mesmo para ganhar.

Quatro anos depois, tivemos folclore mas menos futebol. Era em casa. Já não havia cocaína Figo nem heroína Rui Costa. Tínhamos perdido o maior momento do futebol português, quando a bola bateu no braço do Abel Xavier.

Um dia vamos voltar a Amesterdão. Oxalá seja em breve.