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Todas as palavras no olhar

"O coração também respira" é uma coleção de histórias de ficção de Jorge Araújo, que são crónicas do quotidiano com gente e futebol lá dentro.

Jorge Araújo

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Ela tem mais óculos do que olhar. Mas ninguém reparou nisso, naquela tarde em que entrou no café do Abel pela primeira vez. As pessoas não sabem quanto a tristeza pesa, pesa sempre muito mais do que se imagina. Era por isso que caminhava com passos doídos, arrastados. O olhar a meia-haste. Atravessou o estabelecimento com o pensamento ausente, nem bom dia nem boa tarde, nenhum cumprimento de circunstância. Quando, finalmente, chegou ao balcão e desembrulhou a voz, falou tão baixo que parecia rezar.

- Por favor, posso colocar isto ali? – disse, ao mesmo tempo que apontava para uma das paredes forradas de anúncios.

Abel estranhou o seu rosto. Não a conhecia de lado nenhum, nunca a tinha visto na vida, nem mais gorda nem mais magra, certamente era nova no bairro. Mesmo assim, cumprimentou-a com o melhor dos sorrisos, sorriso largo, um tanto maroto. Só depois passou em revista a folha que palpitava nas mãos dela. Claro que pode, gentileza na ponta da língua, temos de ser uns para os outros, acrescentou, sabe, minha senhora, eu também gosto muito de animais, só não tenho um lá em casa porque o meu apartamento é muito pequeno, concluiu o raciocínio.

- É só um bocadinho que já lhe arranjo um espaço aqui na parede… – acrescentou, enquanto retirava um anúncio do Isaías a oferecer músculos para mudanças. Não lhe doeu a consciência, há mais de um ano que o Isaías arranjara emprego numa empresa de segurança.

A mulher agradeceu a cortesia com um sorriso envergonhado. Foi talvez, por isso, que Abel olhou para ela. Pela primeira vez com olhos de ver – era alta e esguia, cabelo pintado para camuflar brancos; era elegante e aprumada, apesar de bem entrada na casa dos cinquenta. Tirando isso, não havia nada a reclamar, cada traço no devido lugar. Mas ela não reparou na sessão de avaliação, estava concentrada, demasiado concentrada, tudo o que queria era colar o anúncio na parede.

“ O meu gato Jeremias desapareceu de casa na noite passada. É muito meigo, tem o pêlo castanho e uma mancha branca na barriga. Já é velho e tem problemas de saúde. Dá-se recompensa a quem o encontrar”. Na última linha, o seu número de telefone.

Mal afixou o anúncio, sentou-se na mesa junto ao balcão e de lá nunca mais se levantou. O Benfica foi campeão na última jornada, o Jorge Jesus esteve quase no Porto, o Renato Sanches foi convocado para a selecção. E o Jeremias não apareceu. O Mourinho foi para o Manchester United, o Gil Vicente está com um pé na Primeira Liga, o Jonas a dar cartas na Copa América. E o Jeremias não apareceu. Ela vestiu-se de preto, forrou-se de luto dos pés à cabeça, os dias a acariciar o terço. E o Jeremias nunca apareceu. As pessoas do café tentavam meter conversa, mas ela tinha mais olhos do que verbo. A sua linguagem era a dos bichos, todas as palavras do mundo no olhar.

Como todos os dias, ontem, lá estava a mulher no café do Abel. Era o primeiro jogo do Europeu. Tal como ela, ninguém ligava nenhuma ao televisor, o pessoal só quer saber de Portugal, mas Portugal só entra em campo na próxima terça-feira. Até lá, os treinadores de bancada têm a palavra, uma taça para discutir. Fernando Santos deve estar com as orelhas a arder, cada um puxa a brasa à sua sardinha. Porque é que o Adrien não joga?, pergunta um. Não me digas que o Danilo é melhor do que o Wiliam Carvalho?, acrescenta outro. O único jogador em estado de graça é o Quaresma, o Harry Potter não se cansa de fazer magia, talvez seja desta que o cigano vai fazer história.

Isaías, o segurança, levantou-se da cadeira com estrondo mal ouviu a palavra cigano. Mas ninguém lhe passou cartão, era analfabeto de pai e mãe, músculos em vez de cérebro. A sua cabeça era um deserto e a boca devia ser um minuto de silêncio. Mas não era.

-Não gosto de ciganos. Só sabem roubar – deixou escapar um embrião de raciocínio.

António, que estava escaldado desde a conversa com o Abel por causa do Éder, não perdeu a oportunidade de mostrar serviço.

- Quero lá saber se é cigano, quero mas é ganhar.

A mulher continuava a acariciar o terço, sentada na mesa junto ao balcão. Tinha o telemóvel mesmo à mão. A perda e a esperança na esquina do mesmo olhar.