Euro 2016

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Tu de facto tentas, Pintilii

O futebol também é feito de jogadores assim, duros e rijos, que correm e varrem o campo todo à procura da bola que normalmente anda nos pés dos craques. Este romeno é um deles

Rui Gustavo

Declaração de interesses: o autor deste texto gosta de futebolistas como Petit e Fernando Aguiar

Foto KENZO TRIBOUILLARD/ Getty

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Adoro jogadores como o Pintilii. O oito da Roménia, que eu nunca tinha visto jogar, nem ouvido falar, secou sozinho o meio campo da França. Apagou Pogba, que segundo os últimos rumores valerá uns 100 milhões para o Manchester United; irritou o Matuidi, e foi uma pedra na engrenagem francesa. Só força e músculo.

Sempre gostei de jogadores assim. O Petit era o meu herói, admito que gostava do André do FC Porto e acho que era o único admirador do trinco da Dinamarca, um careca tatuado que distribuía pancada e bebia cerveja com a mesma vontade e por causa disso acabou a carreira cedo depois de umas passagens pelo futebol no pátio de uma cadeia. Chamava-se Gravesen, esteve no Real Madrid e foi logo dispensado porque no Santiago Bernbéu não há lugar para futebolistas sem pedigree. Mas eu adorava-o.

Parece um contra-senso: como é que alguém que gosta tanto de futebol tem um fraco por jogadores cuja missão é destruí-lo? Deve ser porque não tenho jeito para qualquer desporto. E os poucos êxitos que tive na minha vida desportiva (sexto homem na equipa de basquetebol do 9ºB e conseguir não ser obrigado a ir à baliza nos jogos do bairro) devo-os ao esforço.

Numa certa altura, ninguém corria mais do que eu. Não estou a falar de velocidade. Mas de tempo. Eu corria mesmo muito.Quando fui rejeitado nos treinos de captação do Caneças, onde vivia, senti-me perplexo. Como é que o esforço não era suficiente? É verdade que rematar e passar, partes sobrevalorizadas no futebol, não eram o meu forte. Mas que equipa passa sem um carregador de piano? Um comedor de relva? É por por isso que me senti vingado com cada golo do Fernando Aguiar no Benfica. ele conseguiu.

O futebol, nisso, é democrático. Há espaços para todos. Até os menos talentosos podem ter uma carreira. E o que é o talento sem esforço? Nada. ou quase. Não foi o Edison que disse que um por cento da sua obra era inspiração e o resto transpiração? Claro que para um génio é fácil dizer isto, mas o cemitério de talentos do futebol que nunca se esforçaram está cheio de promessas não realizadas.

No jogo de abertura do Europeu, estava pela Roménia, claro. Onze desconhecidos a bater o pé à equipa de estrelas? Boa. Toma lá treinador do Caneças que prefiro nem lembrar o nome. Já me estava a lembrar do Atlético de Madrid campeão à imagem do Simeone, outro caceiteiro, (ou viril, para mim) quando um tal de Paiyet fez o que só um sobredotado pode fazer. Dois passos, um remate, golo e a França salva. No fim, Mozart vai sempre vencer Salieri.