Euro 2016

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1976: Quando os checos eram eslovacos (e vice-versa)

A propósito da estreia da Eslováquia, este artigo recorda aquela seleção que venceu o Europeu (a de Panenka) e era composta por oito eslovacos

Hugo Franco

Há quarenta anos, este senhor aqui sentado inventou um penálti. Chama-se Panenka

Foto MICHAL CIZEK/Getty

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Os eslovacos nunca tinham participado num Europeu de futebol. Na verdade, a frase esconde uma mentira. Vamos lá corrigir. A seleção da Eslováquia estreia-se numa Euro mas muitos jogadores eslovacos já participaram em europeus de futebol. E uma mão cheia deles até se sagrou campeão. Confuso? Um bocado, de facto.

Aquela que era a porção mais pequena da Checoslováquia não precisa de se colocar em bicos de pés para reivindicar também para si pelo menos metade dos louros da vitória saborosa em 1976. Do onze base da seleção que venceu - há precisamente 40 anos - a República Federal da Alemanha (RFA) na final do Campeonato da Europa (realizada na Jugoslávia), oito jogadores tinham nascido em território que é hoje a Eslováquia.

E mais. Foram dois eslovacos que marcaram os golos nesse jogo contra os alemães, antes da partida se decidir por grandes penalidades. No entanto, seria um checo, Antonín Panenka, natural de Praga, a marcar o penalty da vitória.

Pormenor: hoje, não existe Checoslováquia, RFA e Jugoslávia mas ainda há jogadores que marcam penaltis num estilo batizado de 'à Panenka'.

Voltemos à História. Durante os 70 anos de existência da Checoslováquia, a equipa nacional obteve ainda outros dois feitos, alcançando, mas perdendo, as finais dos mundiais de 1934 e 1962. A Itália e o Brasil foram então os carrascos dos checos.

Até à dissolução do país em 1992, que se seguiu à queda do Muro de Berlim e à implosão da Cortina de Ferro, muitas estrelas oriundas do território eslovaco deram alegrias aos checoslovacos. Aqui vai um 11 ideal, com um selecionador incluído, construído principalmente na década de setenta:

– Václav Jezek, o selecionador que deu a vitória ao país em 1976

– Marián Masny, o segundo jogador com mais internacionalizações e um dos melhores marcadores de sempre da Checoslováquia

– Ján Pivarník, um defesa férreo decisivo na conquista do campeonato da europa em 1976

– Anton Odrus, o capitão da seleção vitoriosa de 1976. Jogava lá mais para trás mas sabia também marcar golos

– Josef Capkovic, outro dos homens essenciais na equipa campeã da europa mandava no meio campo

– Josef Móder, mais um imprescindível na máquina de destruição maciça checa em 1976. Jogava no meio do terreno

– Karol Dobias, sabia jogar em quase todas as posições do relvado. Na final de 1976 marcou um dos golos que derrotou a RFA

– Jaroslav Pollák, falhou a final por castigo mas sem o médio defensivo aquela equipa não tinha ido tão longe

– Ladislav Petrás, atacante de luxo durante a década de 70 muito amado pelos adeptos checos

– Ján Svehlík, outro avançado, um pouco tosco mas possante. Deixou a sua marca na final ao marcar o primeiro golo contra a RFA

– Dusan Galis, sentou-se no banco durante o Euro vitorioso devido à forte concorrência mas era um dos principais marcadores do país

O talento da equipa que disputa em 2016 o Grupo B do Euro em França talvez se encontre a anos-luz daqueles homens que festejaram o triunfo em 1976. Mas a Eslováquia guarda os seus trunfos: um deles é o selecionador Ján Kózak, que fez parte da equipa checoslovaca, terceira classificada no Campeonato da Europa de 1980. Além disso, muitos atletas, como Martin Škrtel, Milan Škriniar, Norbert Gyömber, Ondrej Duda, Marek Hamšík ou Juraj Kucka, jogam em ligas competitivas como a inglesa e a italiana.

Aos eslovacos falta-lhes currículo? Sim, não, talvez. A resposta fica ao seu critério. Para já começaram mal com a derrota contra o País de Gales.