Euro 2016

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A vida é bela, mesmo quando não é bonita

A Itália ganhou (2-0 ) à Bélgica num jogo em que sofreu, correu e suou. O trabalho venceu o talento. Onde é que já vimos este filme?

Pedro Candeias

Foto Julian Finney/Getty

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A Itália não tem jogadores habilidosos a jogar nas melhores equipas dos melhores campeonatos e os seus melhores jogadores até são o guarda-redes e os centrais que jogam na melhor equipa do campeonato deles - que está longe, bem longe da Premier League, da La Liga ou da Bundesliga. Buffon, Barzagli, Bonucci e Chiellini são da Juventus, um clube à parte da Serie A que nos últimos anos desceu à categoria B da Europa. E estes quatro têm 133 anos, o que dá uma média de 33,25 anos, dois anos acima da média de toda a equipa titular de hoje da itália - 31.

Portanto, além de não ter os melhores jogadores nas melhores equipas e de os seus craques serem defesas, a Itália é também uma equipa velha. Basicamente, a Itália é tudo o que a Bélgica não é.

Os belgas são novos e talentosos, aparentemente nascidos todos numa geração espontânea e têm nomes como Hazard, Fellaini, Witsel, De Bruyne, Lukaku, Courtois, e jogam no Cheslea, no Manchester United, no Manchester City, e sei lá que mais. E têm a ideia de um futebol positivo, que joga para a frente, técnico, pressionante e criativo. Basicamente, a Bélgica é tudo que a Itália não é.

A Itália, esta seleção italiana, é segura e sólida, defende com muitos, ataca com os que pode, como pode, assente num 5x3x2, com três centrais, dois laterais (Candreva é o novo Zambrotta), um trinco (o eterno De Rossi), dois interiores e dois avançados que acorrem como loucos (Pelle e Giaccherini) aos passes diretos - ou longos. Num deles, Bonucci lançou Giaccherini à distância, este dominou de pé esquerdo à primeira e chutou com o direito logo a seguir. Eles podem não ser prodígios de técnica, mas dominam os fundamentos do jogo: receção, passe, primeiro toque.

A partir do momento em que se encontraram em vantagem, os italianos trouxeram os belgas para o seu jogo. Deixaram-se estar, recolhidos, como um pugilista malandro encostado às cordas, a levar socos nos braços e nas luvas, sempre à espreita de um soco rápido que surpreendesse. Courtois ainda fez um par de defesas até a Bélgica, na segunda parte, ter assumido por completo o domínio do jogo. Wilmots pôs Mertens, reforçou o ataque e empurrou a Itália lá para trás, para aquele lugar em que cedo ou tarde as asneiras acontecem quando o cansaço se instala e a desconcentração baralha as marcações. Desta vez não aconteceu. Os italianos, os velhos e bons italianos, sabem sofrer e manter o juízo e o sangue frio mesmo jogando com a corda na garganta - e são capazes de se soltarem dela para atar um encontro quando a oportunidade surge. Pellé fez o 2-0 mesmo, mesmo no final e ficámos com a sensação de já ter visto este filme algures.

INFOGRAFIA PAULO ALVES/GOTV/GOALPOINT/OPTA

INFOGRAFIA PAULO ALVES/GOTV/GOALPOINT/OPTA

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