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Duarte Gomes e as seis das 95 alterações às leis do jogo

O antigo árbitro explica o que mudará de agora em diante para que perceba melhor o papel dos juizes dentro de campo

Duarte Gomes

Foto Mike Hewitt/Getty

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Depois de várias décadas de resistência, o International Board - orgão que analisa e aprova alterações às leis de jogo - decidiu finalmente render-se ao apelo do universo do futebol. Mas a vontade em mudar muito e de uma só vez pareceu excessiva. Não que as alterações e inovações propostas não sejam válidas. Pelo contrário. São-no quase todas.

Mas porque entre o nada e o demasiado há sempre um ponto intermédio. Chama-se equilíbrio.

E está feito. Assim sendo, senhoras e senhores jogadores, treinadores, árbitros, jornalistas e adeptos de futebol, façam o favor de informar-se, de estudar, de analisar e de adaptar-se. E sejam bem vindos ao mundo das novas leis de jogo.

Foram, ao todo, noventa e cinco, repito, noventa e cinco alterações.

Os objetivos subjacentes à mudança foram tão ambiciosos quanto íntegros: facilitar o entendimento por todos os que amam o jogo; tornar o texto da lei mais simples e claro; permitir a valorização do espetáculo, através de um conjunto de regras mais justas; e evitar cada vez mais alguns erros de interpretação, em alta competição cada vez mais incompreensíveis.

Não vamos aqui dissecar todas as alterações. Seria impossível. Mas vamos levantar o véu sobre algumas das mais significativas, esperando que o mote sirva de incentivo à curiososidade dos mais aficionados. Porque para discutir futebol é preciso compreendê-lo. Certo?

1. O guarda-redes e o penálti

Anotem esta. A partir de agora, será exibido cartão amarelo ao guarda-redes que se mova claramente para a frente antes de um pontapé de grande penalidade ser batido, tal como também será exibido ao executante que, após terminar a sua corrida, simule rematar a bola mas não o faça de imediato.

A ideia é boa. Acabar com "a batota" nas grandes penalidades, por parte de quem ataca e de quem defende.

2. A lesão dentro de campo

Anotem outra. Se um jogador ficar lesionado por força de uma falta que leve à exibição de amarelo ou vermelho ao infrator, este já pode ser tratado dentro do terreno e não tem que o abandonar depois. Basta que essa avaliação e assistência sejam rápidas.

Objetivo? Não beneficiar a equipa do jogador que faz a falta, que ficaria temporariamente com mais um atleta, devido à saída do terreno daquele que foi vítima. De novo... justíssimo.

3. Faltas fora do campo

Mais uma. Faltas que ocorram fora do terreno de jogo mas por ação deste passam a ser punidas como se a ação tivesse ocorrido no interior das quatro linhas. Exemplo: dois jogadores saem do relvado por força de uma jogada. Quando um deles tenta reentrar, o outro agarra-o ou puxa-o pela camisola. Agora, a equipa do infrator será punida com pontapé livre direto ou grande penalidade, dependendo da zona mais próxima onde a falta foi efetuada. Faz todo o sentido.

4. Apito inicial

Outra novidade. O pontapé de saída (na marca do meio-campo) passa a ser permitido em qualquer direção e não apenas para a frente, como acontecia até ao final da época passada. O jogador pode por isso tocar a bola para o colega, jogando-a para a frente, mas também para o lado ou para trás.

5. O videoárbitro

Das tecnologias, já se falou demasiado mas não é demais recordar que o "vídeoárbitro" foi aprovado mas apenas para um período de testes (dois anos), de forma a avaliar-se os prós e contras dessa medida. Portugal foi um dos países eleitos para os referidos testes.

6. Triplo castigo

Para o fim, deixo a alteração mais significativa e que pode dar azo a dúvidas, quer por parte de quem a interpreta (árbitros), quer por parte de quem a acata (jogadores, treinadores, clubes).

Imaginem a seguinte situação: um jogador segue isolado, rumo à baliza adversária, com clara possibilidade de fazer golo. Já dentro da área, é rasteirado por um adversário. Até aqui, a equipa defensora era punida com grande penalidade e o infrator expulso e mais tarde suspenso, pelo menos, por um jogo. Certo? Era a chamada "tripla penalização", que agora deixou de ser possível.

Com a nova alteração, caso essa falta seja feita dentro da área de grande penalidade e o defesa tente apenas jogar, disputar ou cortar a bola... continua a ser grande penalidade mas o infrator já não é expulso. Apenas advertido (ou seja, é-lhe apenas exibido o cartão amarelo).

Mantém-se a penalização coletiva à equipa (que é a de assinalar o castigo máximo) mas retiram-se as individuais (expulsão do infrator e posterior suspensão).

O caro leitor percebeu bem?

Para que o infrator não seja expulso, é necessário que a falta seja cometida no interior da "grande área" e que o defesa que faz a falta tenha a intenção de "jogar limpo", ou seja, disputar a bola.

Mas atenção! Se ao efetuar essa infração, o defesa não tentar jogar a bola de maneira honesta e leal (ou seja, se empurrar o adversário, agarrá-lo, tiver uma entrada mais grosseira ou violenta ou até cortar a bola com a mão/braço), desde que essa ação faltosa corte uma clara oportunidade de golo do adversário, ele será sempre expulso do jogo.

Esta é a exceção ao fim da tal "tripla penalização". É preciso que haja lealdade na abordagem ao lance e não apenas vontade de o travar a todo o custo.

Outra dedução então. Se essa falta (sobre o avançado que segue com clara possibilidade de fazer golo), for cometida fora da área, aí o infrator será sempre expulso (cartão vermelho), mesmo que só tente jogar a bola.

Porquê? Porque aí já não seria punido com grande penalidade, "apenas" com pontapé livre direto. E por isso não haveria a tal tripla penalização.

Parece difícil de entender, porque de facto é. Mas a prática poderá ajudar. Embora possa também complicar.

É que caberá sempre ao árbitro decidir - na dúvida - se um infrator que faz falta passível de grande penalidade, tentou ou não jogar apenas a bola. E aí residirá a diferença na ação disciplinar e consequentemente no curso do jogo.

O universo do futebol quis acabar com as três penalizações numa só jogada, por entender excessivo. E bem.

Mas não seria mais prudente manter-se sempre a decisão de expulsar e de assinalar o "penalty" e retirar-se então a suspensão posterior do infrator?

Para quê retirar o vermelho em (alguns) lances de grande penalidade - que ocorrem bem mais perto da baliza - e mantê-lo, nas mesmas circunstâncias, em infrações mais distantes desta?


Seria mais fácil de analisar e seguramente bem aceite por todos. Digo eu.