Euro 2016

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Paulo Garcia

Paulo Garcia

Jornalista

Em nome do povo

O jornalista da SIC Notícias lança o seu repto à seleção nacional

Paulo Garcia

Miguel A. Lopes/Lusa

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Parece estranho que um selecionador de uma seleção que não está na primeiríssima linha do futebol europeu e mundial tenha a ousadia de se considerar favorito e capaz de, através de uma graça fácil e aparentemente sem nexo, se achar no direito de afrontar essas mesmas potências com um enorme: "Viemos cá para ganhar".

Até mesmo as conclusões posteriores não ajudam a esclarecer a verdadeira força dessa declaração ambiciosa...

Mas Fernando Santos é tudo menos tolo!

E também não me parece que sejam as suas convictas crenças religiosas e o acreditar que "de lá de cima" possa vir o "bendito empurrão" que o levou a expor-se desta forma. Nada disso!

Fernando Santos é movido por uma outra crença e esta é que poderá ser decisiva e determinante para que todos aqueles para quem vai a mensagem, seleção nacional e em especial o povo que ela representa, acreditem mesmo que podemos e queremos deixar a nossa marca e o nosso ADN neste Europeu, que também ele vale muito mais que a bola que vai à trave e não entra ou aquela que bate na trave e dá golo.

O que Fernando Santos sabe e todos sabemos é que nunca estiveram reunidas tantas condições para sermos felizes (todos) pelo menos durante um mês.

A força desta mensagem atinge-nos naquilo em que somos neste momento mais frágeis: a nossa auto-estima enquanto portugueses, a nossa capacidade de reagir aos anos de angustia e muita amargura a que este povo foi sujeito e em nome ainda não sabemos de quê nem para quê.

A vitória da seleção nacional (seja ela da dimensão que for) será a vitória daqueles que não se subjugaram ao monstro da ditadura dos números, dos que nos obrigaram a viver para quadros, percentagens, défices, limites, cortes, angústia para tudo e mais alguma coisa... Esta será a derrota dos que nos pararam, dos que nos impuseram a ideia de que tudo o que fosse para além disto não interessava.

A quase nula incapacidade de passar uma mensagem de esperança, de confiança no futuro.

O de podermos gritar bem alto de que estamos vivos e em condições de nos podermos emocionar, desta vez por uma causa boa que nos une a todos.

Ainda por cima com força suficiente para em conjunto, durante o tempo que um jogo de futebol nos permite... acreditar que somos finalmente bons!!!

Esta é a hora para os idosos, desempregados, empregados assim-assim, afectados mais ou menos, para os que acreditam em tudo o que lhes vendem... para os que não acreditam em nada, até para os que não gostam de futebol, colocarem uma pedra em tanto azedume e gritarem, sofrerem, chorarem e rirem... e até apertarem a mão ao parceiro que nunca conheceram mas que até está a ver o jogo ao lado e que até está a sentir o mesmo que que nós sentimos: paixão por uma bandeira... amor a algo que é nosso e que nos foi transmitido por herança familiar... O ser português!

E Fernando Santos também sabe o peso exterior que esta mensagem representa...

É que Portugal vai muito para além deste canto pequenino e talvez por isso tenha caído tão mal aquela cretina mensagem de que "Somos 11 milhões". Não somos nada. Somos muitos mais.

Estão mais 5 ou 6 milhões lá fora. Se nem estas contas sabem fazer quanto mais as outras...

Os que estão a ver e a acompanhar todos estes momentos sem direito à sardinha assada e aos caracóis.

Estão longe, vivem longe, está-lhes cada vez menos vedado o sonho do regresso porque nalguns casos até foram convidados a sair porque aqui não tinham futuro.

A mensagem aqui ainda tem mais força. Só quem nunca esteve emigrado não conhece essa sensação e esse orgulho de ser português à distância.

Fernando Santos antes de se atirar para a frente com a ousadia desta quase premonição pensou no peso que ela representava e no risco que corria. Afinal ele melhor do que ninguém sabe o que pensa um português emigrado e ao que se sujeita às vezes...

Fernando Santos sabe melhor do que ninguém que um golo, um grande lance, uma grande vitória frente às grandes potências europeias (que também o são fora do futebol), permite aos portugueses, em qualquer parte dessa mesma Europa, chegarem ao trabalho poucas horas depois, e poderem dizer com todo o orgulho: "nós somos melhores do que vocês...querem que eu grite? Perderam com o meu país. Agora guardem esse poder todo e esse dinheiro e essa prepotência no lugar que todos sabemos...porque nós somos melhores".

Nesse dia não há distância nem trabalho que os pare...

Não tenho duvidas que é nisto tudo que está a grandeza da declaração de Fernando Santos...

É para isto, em França em particular, segundo país luso a seguir ao nosso, que vai determinar todos os movimentos, todo o suor, todo o sofrimento que rodeará cada momento de jogo do primeiro ao ultimo minuto do Euro...

Querem apostar que é isto que ele vai dizer aos jogadores antes de entrarem em campo?

Vai ser para todos os que terão a responsabilidade de carregarem em campo o peso disto tudo...

Vamos para ganhar, claro que sim...

Façam-no... em nome do Povo!!!

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