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Levaram o António

"O coração também respira" é uma coleção de histórias de ficção de Jorge Araújo, que são crónicas do quotidiano com gente e futebol lá dentro.

Jorge Araújo

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A polícia apareceu hoje de manhã no bairro e levou o António. Foi um alvoroço. As mulheres aos gritos, histéricas, os homens aos insultos, possessos. Uma multidão enfurecida barrava os agentes da Polícia Judiciária. Para abrir caminho, quase foram precisos disparos para o ar. Os vizinhos juravam a pés juntos, devia ser engano, ele é um homem de bem, só podia ser engano, ele não é capaz de fazer mal a uma mosca, não podia ser um bandido.

Mas a polícia continuou tão surda a argumentos, que mais não lhes restou do que dispersar. Cada um à sua vida, com a revolta à flor da pele. Quando a notícia começou a passar em rodapé nas televisões, ninguém queria acreditar. Afinal, António era muito mais do que um bandido, era um malfeitor da pior espécie. A notícia confirmava todas as letras – pedófilo. Há já algum tempo que a polícia andava de olho nele, agora fora apanhado em flagrante. Crianças despidas em poses inimagináveis, o crime numa página da Internet. Difícil de acreditar a pouca vergonha que é o seu computador.

O bairro em estado de choque. As mulheres aos gritos, histéricas, os homens aos insultos, possessos. A multidão a querer fazer justiça com as próprias mãos, apanhar o António e linchá-lo na rua. Pensando bem, dizia um vizinho, eu sempre desconfiei daquele arzinho, ele nunca me enganou, confirmava outro.

Pela primeira vez, Isaías e Duarte estavam de acordo - um dizia mata, o outro esfola.

- Esse gajo é um filho da puta – gritava, Duarte.
- Se apanho o gajo, mato-o – carimbava, Isaías.

Como acreditar? António era chefe dos escuteiros, quase todas as crianças do bairro passavam-lhe pelas mãos. Ainda por cima, era o carteiro, a caixa negra do bairro. Era ele quem entregava o cheque da reforma aos velhinhos, quem dava e mandava notícias, quem escrevia as cartas de amor aos que desconheciam o abecedário.

À tarde, a notícia continua em rodapé no televisor do café do Abel. Nunca mais do que o rodapé, umas frases no fim do ecrã. Para lá do bairro, tudo o que interessa é Ricardo Quaresma. O jogador vai ou não estar em condições para jogar contra a Islândia? Ninguém quer saber do pedófilo. O homem que sabia o segredo de toda a gente sem ninguém desconfiar do dele.