Euro 2016

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Os checos e a República das baratas

Tal como Portugal, também os checos tiveram a sua geração de ouro. E não estamos a falar de Franz Kafka, mas também estamos a falar dele e de como a sua escrita pode ter metamorfoseado alguns jogadores da seleção de futebol da República Checa

André de Atayde

Foto Dennis Grombkowski/Getty

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"Certa manhã, ao acordar após sonhos agitados, Gregor Samsa viu-se na sua cama, metamorfoseado num monstruoso insecto". Começa assim o livro "A Metamorfose", um dos livros mais conhecidos e emblemáticos de Franz Kafka, escritor nascido em Praga, República Checa, a 3 de junho de 1883, em pleno Império Austro-Húngaro. Dividem-se as opiniões acerca do tipo de inseto a que Kafka se referia. Sabe-se que tinha uma carapaça dura "que parecia revestida a metal" e patas "miseravelmente finas". Há quem defenda que Gregor era um besouro, há quem diga que era uma barata. Aqui, e porque o texto é, supostamente, sobre futebol, centremo-nos na barata, um inseto resistente a muitas e variadas adversidades, de características bastante particulares.

As baratas são insetos muito pouco (ou nada) tolerados pelas pessoas, isto é um facto. São, aliás, muitas vezes descritos em linguagem vulgar como "bichos nojentos". Para grande azar, as baratas são um grupo cosmopolita, que em linguagem biogeográfica se pode traduzir por existirem no mundo inteiro. E são cosmopolitas porque se ambientam a qualquer território e suportam todo o tipo de condições climatéricas.

Estima-se que as baratas existam há cerca de 300 milhões de anos e que haja qualquer coisa como cinco mil espécies, que variam de tamanho consoante a zona do globo em que habitam. As que se encontram em países tropicais, por exemplo, são bastante maiores do que as que temos por cá, podendo algumas atingir os 10 centímetros e ser de cor vermelha, verde ou amarela. São insetos onívoros, e isto significa que se alimentam de qualquer coisa, mas deliciam-se com doces e alimentos gordurosos de origem animal.

Não é tarefa fácil matar um inseto, ainda que este seja centenas (ou milhares!) de vezes mais pequeno do que o ser humano. Quem nunca tentou matar uma barata à chinelada e não conseguiu que atire a primeira pedra. Não desespere, a ciência tem a explicação para isso. As baratas têm dois pêlos na parte traseira do corpo chamados 'cercis' e o mínimo balanço desses dois pêlos é transformado em sinal nervoso. A informação é depois transmitida quase de imediato ao 'gânglio', o cérebro das baratas que está situado nas costas e o "bicho" foge a uma velocidade considerável.

Outras, impressionantes, características das baratas: vêem muito bem no escuro; arrancar uma pata não serve de nada porque volta a crescer ao fim de alguns dias; a cabeça também não porque continuará viva - o sistema nervoso está espalhado pelo abdómen - e durará semanas até morrer de fome; o exosqueleto (carapaça) é de quitina, resistente como uma pedra. Há, também, quem defenda que seriam as únicas sobreviventes a um desastre nuclear.

Gregor Samsa foi o primeiro checo a ser tranformado em barata, num processo kafkiano sem precedentes. Mas se recuarmos não muito longe no tempo, talvez possamos identificar algumas características do inseto em dois checos bem conhecidos do futebol moderno: Pavel Nedved e Karel Poborsky. O primeiro foi um prodígio do futebol checo, preenchia o meio-campo como poucos e foi contratado pela Juventus para ocupar o lugar deixado vago por Zidane. Será que Nedved tinha 'cercis', os tais dois pêlos no fundo das costas que o avisavam se algum adversário se aproximasse dele para lhe tentar tirar a bola?

Em 2003 venceu uma Bola de Ouro e ajudou a sua seleção a chegar à final do Euro em 1996, jogo perdido (2-1) frente à Alemanha. O homem do jogo nessa final foi outro: Karel Poborsky, que marcou 'aquele' golo de chapéu no jogo dos quartos-de-final dessa mesma prova e logo frente à seleção portuguesa. Jogou mais de 100 vezes pela seleção da República Checa e, feito jogador fora de série com uma velocidade impressionante, tinha um estilo "barata tonta" bastante eficaz. Que o digam os adeptos do Benfica, clube onde esteve de 1998 a 2001. Tal como o inseto, que ao se aperceber do perigo desata a correr, também Poborsky deixava adversários para trás com a mesma facilidade com que as baratas se desviam dos chinelos.

Já lá vai o tempo em que era difícil destacar uma só figura na seleção checa. Hoje em dia, e em concreto para este Euro 2016, talvez haja uma que ainda mantém o espírito de "barata kafkiana": Petr Chech. Apesar de andar longe das exibições a que habituou os fãs de futebol, nunca se sabe quando puxará das seis patas de inseto que parecia ter no Chelsea e lhe deram o estatuto de um dos melhores do mundo na sua posição. A experiência e a capacidade de liderança existem e isso também pode fazer a diferença durante os 90 minutos