Euro 2016

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“Vamos fazer o nosso melhor para vigiar o senhor Ronaldo”, dizem os islandeses

A pequena Islândia fez história ao qualificar-se pela primeira vez para o Europeu mas os islandeses ainda não estão satisfeitos e querem surpreender a “muito boa e muito flexível” seleção portuguesa, que tem “um jogador muito especial”. O único problema vai ser adormecer esta noite

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Há pouco mais de 300 mil islandeses e não será exagerado dizer que quase todos vão estar, amanhã, de olhos colados no Portugal-Islândia: as dezenas e dezenas de jornalistas islandeses que estão a seguir a seleção, os nove mil adeptos que são esperados no estádio Geoffroy-Guichard e os restantes 97% da população que ficaram em casa mas vão de certeza acompanhar o momento em que o país fizer história, como iam explicando os jornalistas islandeses aos portugueses presentes na conferência de imprensa de antevisão do jogo, realizada esta tarde.

É que a Islândia qualificou-se pela primeira vez para um Europeu - à frente da Holanda e da Turquia - e é, de longe, o país mais pequeno a alguma vez tê-lo conseguido, o que impressiona ainda mais quem não conhece o plano de investimento nacional que a federação implementou há 15 anos, incentivando a prática da modalidade desde tenra idade nos novíssimos pavilhões de futebol - sim, pavilhões - construídos para proteger os jogadores do clima adverso do país.

Foi assim que nasceu a “geração indoor” da seleção, na qual se destacam dois dos islandeses que estiveram esta tarde com os jornalistas: Gylfi Sigurdsson, do Swansea, e Aron Gunnarsson, do Cardiff. “Claro que estamos muito entusiasmados por estar aqui e orgulhosos por termos feito história, mas a preparação é igual e só queremos que comece, porque de resto é só um jogo de futebol, não há nada diferente nisso”, disse Sigurdsson, provavelmente o jogador mais influente da equipa, que lidera o meio-campo.

Gunnarsson seguiu as ideias do maestro islandês: “Sonhei com isto desde criança e é difícil descrever o quão orgulhosos estamos, mas temos de tratar o jogo como se fosse outro qualquer. Temos um selecionador muito experiente que sabe muito bem o que temos fazer”.

O selecionador a que Gunnarsson se refere é o sueco Lars Lägerback, mas os selecionadores islandeses até são dois. Explicando: Lagerbäck é o selecionador principal desde 2011, mas o adjunto Heimir Hallgrímsson foi entretanto promovido a co-selecionador, até porque Lagerbäck vai retirar-se após o Europeu. “Estamos desejosos de começar o Euro e de jogar contra Portugal, apesar de sabermos que é uma equipa muito forte, uma das favoritas a conquistar o Euro”, explicou Lagerbäck.

Ao lado do sueco, o islandês Hallgrímsson também distribuiu elogios pela seleção portuguesa. “É provável que tentem resolver rapidamente o jogo. Jogaram muito bem nos últimos dois jogos e não foi coincidência terem jogado com a Noruega e com a Estónia. Portugal tem um estilo muito flexível de jogo, não tem apenas um modo de jogar, por isso é mais difícil defender isso e defrontá-los”, explicou.

Questionado sobre a influência de Cristiano Ronaldo, Lagerbäck disse que não achava que Portugal fosse “dependente” do seu capitão, ainda que seja “um jogador especial”, claro. “Todos sabemos que é um dos melhores do mundo e vamos estar mais atentos ao que faz, mas não fazemos marcações individuais e também sabemos que Portugal tem outros jogadores muito bons. Vamos fazer o nosso melhor para vigiar o senhor Ronaldo. Mas claro que se ele não estivesse amanhã entre os titulares não digo que eu chorasse”, gracejou.

Lagerbäck também aproveitou para esclarecer as declarações que fez na semana passada sobre os internacionais portugueses Pepe e Ronaldo, insinuando que ambos eram “atores” em campo. Mas não foi bem isso que ele disse, disse ele: “Não disse o que disseram que disse sobre Portugal. Eu sempre disse que não gosto de fingimentos, em geral, no futebol, não é de agora e não mencionei especificamente a equipa portuguesa. Mas como foi depois da final da Liga dos Campeões, os jornalistas ligaram isso ao que Pepe fez, que acho que todos nesta sala vimos bem o que foi. Acho que fingir seja o que for é muito pouco profissional”.

ODD ANDERSEN

Quem teve elogios para um jogador português foi Sigurdsson, que foi colega de Éder no Reino Unido. “É um jogador muito bom, que teve azar com as lesões no Swansea, mas ainda bem que as coisas lhe correram melhor no Lille. Não sei por que razão foi criticado em Portugal, até tem marcado golos e acredito que jogue bem se tiver essa oportunidade.”

O co-selecionador Heimir Hallgrímsson explicou que esperavam que Portugal jogasse em 4-4-2, mas Lars Lagerbäck não quis confirmar o mesmo sobre a sua equipa. “Não interessa se são um, dois ou três avançados, amanhã veem. De um ponto de vista futebolístico já não há muito a fazer, não quero aborrecer os jogadores. Logo à noite teremos reunião de equipa e iremos prepará-los para amanhã, especialmente mentalmente, se bem que eles nisso já são muito fortes”.

Muito fortes, mas… “Não me admirava se alguém logo à noite batesse à porta do médico para pedir comprimidos para dormir”, gracejou Sigurdsson. “Mas acho que só precisam de um bom livro para ler e estão preparados.”