Euro 2016

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Ver a bola numa ‘roulotta’ em Saint-Étienne

O que fazer num domingo à tarde numa cidade às moscas? Resposta fácil para qualquer adepto que se preze: comer uma bifana, beber umas minis e ver a bola. Onde? Numa roulotte portuguesa em Saint-Étienne - cidade onde a seleção joga terça-feira -, pois claro

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David: Portugal? Vai ser campeão [risos].
Alexandre: Já sabia que ias dizer isso [risos] Não… quartos, meias finais.
António: Final.
Alexandre: E depois perde?
António: Vai ganhar 4-0.
Alexandre: Era bom.

Mariana: Em que ano veio para aqui, António?
António: Vim em 1966. A culpa não foi minha, foram os meus pais que me trouxeram, ainda criança.

Mariana: Lembra-se do Euro 84?
António: Sim. Podia ter sido melhor. Havia bons jogadores nessa altura, o Rui Costa…

Mariana: Em 84?
Alexandre: Quando perdemos contra a Espanha?

Mariana: Perdemos nas meias-finais com a França.
António: Ah, sim, e foi roubado.
David: E a França ganhou à Itália.
Alexandre: Não, à Alemanha.

Mariana: Não, à Espanha, marcou o Platini.
António: E foi roubado, o Xavier foi expulso.
David: Não, não é nada disso.

Mariana: Isso foi em 2000.
António: Diga-me lá isso melhor que estou a confundir os anos.
Mariana: Agora estamos em 2016.

C’ est un ville très calme” (“é uma cidade muito calma”). Sem saberem, o revisor do comboio, a taxista e a voluntária disseram todos a mesma coisa sobre Saint-Étienne, a cidade do centro de França onde a seleção portuguesa chega segunda-feira para preparar a estreia no Euro-2016, marcada para o dia seguinte. Mas estavam bem enganados.

Onde é que se pode animar um final de tarde de um domingo tão calmo, tão calmo que não há ninguém no estádio Estádio Geoffroy-Guichard e até os táxis demoram meia-hora a aparecer? Numa roulotte portuguesa, pois claro. Perdão, ‘roulotta’. “Comecei o negócio da ‘roulotta’ há quatro meses e agora os portugueses vêm cá ver os jogos e comer bifanas e hamburguers de alheiras de Mirandela”, explica David Carpinteiro, um português com sotaque francês - “só falo no verão, quando vou a Portugal, se Deus quiser” - ou um francês disfarçado de português - vestido com uma tshirt da Super Bock.

Tal como Paris, Saint-Étienne tem muitíssimos portugueses - são à volta de seis mil, diz Jean-Pierre Chapuis, da câmara local, ao Expresso - entre os seus 170 mil habitantes. Um deles, David Carpinteiro, tem não só um “coração lusitano”, como um negócio tipicamente lusitano: a Lisbon Food Truck, uma velha carrinha Citroën de 1973 que David comprou por €11 mil e transformou em roulotte de comida portuguesa que, durante o Europeu, está baseada em Veauche, a pouco mais de 10 quilómetros do centro de Saint-Étienne.

David Carpinteiro com a velhinha Citröen que renovou para usar como 'food truck'

David Carpinteiro com a velhinha Citröen que renovou para usar como 'food truck'

É que é num terreno desta pequena localidade que está a eKaliso, uma empresa especializada em portas e janelas que pertence a Alexandre Cunha, outro lusofrancês que nasceu francês mas se sente português. "Eu e o David conhecemo-nos há anos e anos, de putos, jogámos hóquei em patins juntos, em Saint-Étienne", conta. "Abri esta empresa há seis anos e como tenho este espaço ao ar livre, depois do David começar com a ‘roulotta’ decidimos pôr isto aqui no torneio, porque há muitos portugueses nesta zona". explica com um sorriso na boca e um cordão de ouro no peito.

"Aqui há muito português, porque isto são pequenas aldeias umas a seguir às outras e os portugueses gostam, porque faz lembrar as aldeias de Portugal", explica David. "Às vezes é difícil é encontrar um francês", graceja António Carpinteiro, pai de David, que começa a pedir uma mini por gestos ao filho. "Gosto mais ou menos de viver aqui. Porque a França antigamente era boa mas agora não presta. Já se viveu melhor e com menos dinheiro, agora pode até haver mais dinheiro mas vive-se pior", lamenta o emigrante português, que ainda trabalha "de vez em quando" na construção. "Há 20 anos é que se ganhava dinheiro, agora não. Agora mais vale ir para a Suíça."

David discorda: bom, bom era voltar para a praia de Mira, ali entre Coimbra e Aveiro, onde passou férias quase todos os anos de vida, depois de ter nascido em França. Mas o negócio é recente e o futuro incerto. "Estou com uma mulher francesa e ela é que quer ir 'ao' Portugal, para viver mesmo. O meu pai é transmontano e já fomos duas ou três vezes a Trás-os-Montes, perto de Mirandela, e ela gosta muito da zona. Especialmente dos hipermercados [centro comerciais] para as compras [risos]", graceja entre goles na cerveja. "Gosta muito do ‘savoir-vivre’ - como se diz em português? - o saber viver dos portugueses".

"A minha mãe agora vive lá, voltou para o sol", ri-se Alexandre, que também já nasceu em Saint-Étienne, mas sempre tentou ligar-se a Portugal. "No início queria trabalhar com empresas portuguesas, mas a mentalidade é muito diferente. Aqui é muito, vamos dizer, muito stress. Quando se diz uma coisa tem de ser assim e tem de se fazer. Se tiver nem que seja uma hora de atraso começam logo a ligar. Em Portugal é muito mais com calma... O meu cunhado lá também tem uma empresa de carpintaria e às vezees durante o verão a dizer ‘ah amanhã tenho de ir trabalhar ali fazer isto e aquilo’. No dia seguinte levanto-me e vejo o meu cunhado ainda deitado: ‘Não, afinal não é hoje, estou cansado’. Aqui não se pode fazer isso, quem fizer isso não aguenta".

AFP

O que Alexandre não aguenta é não ver os jogos da Liga portuguesa, especialmente do Sporting de Braga, ainda que de vez em quando também vá ao Geoffroy-Guichard ver "les verts", como é conhecida a emblemática equipa local, que já não é das maiores potências francesas, mas continua a ser a que tem mais campeonatos (10). "Nós portugueses gostamos da bola. Mas Saint-Étienne é só futebol. A equipa teve muitos anos bons, foi à final da Liga dos Campeões da altura em 76, aqui é uma paixão muito grande por eles. Mas eu é mais a equipa de Portugal", diz, orgulhoso.

"Terça-feira vou lá ver o jogo. Também vi quando Portugal jogou lá em rugby, em 2007. E foi mesmo… Quando foi o hino, ouvir o estádio a cantar, estava todo arrepiado. O meu primo até chorou", conta. "Acho que a ligação forte a Portugal vem da parte dos nossos pais.E crescemos com muitos portugueses, ficamos na comunidade. Os meus filhos ainda não sabem falar bem, mas já percebem qualquer coisa. É uma ligação que nunca se perde". Mesmo que se percam as memórias sobre os Europeus de 84 e 2000.