Euro 2016

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Vitor Pereira e o Maradona dos Cárpatos

"Na Gaveta" de hoje vai recuperar algumas das despedidas de jogadores veteranos em competições internacionais. A de Hagi não foi "bonita".

Adriano Nobre

Foto Getty

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De dois em dois anos, o ritual repete-se. Seja no arranque de um Campeonato da Europa ou de um Campeonato do Mundo, há sempre jogadores que sabem que esta será a sua última presença na fase final de uma grande competição internacional com a camisola do seu país.

O Europeu deste ano não foge à regra e tem vários candidatos de peso perfilados para a despedida. E se é provável que alguns até possam “aguentar-se” por mais dois anos e prolongar a sua lista de internacionalizações até ao Mundial que se disputará na Rússia, a idade que têm hoje torna virtualmente impossível a sua presença na fase final do próximo Europeu, em 2020.

Na seleção portuguesa há um exemplo que se destaca sobre todos os outros. Ricardo Carvalho, atualmente com 38 anos, seria um daqueles casos que desafiaria a lógica se ainda conseguisse jogar a fase final de um Europeu daqui a quatro anos.

Com a mesma idade que Ricardo Carvalho, o guarda-redes italiano Buffon já deu a entender que ainda pretende defender a baliza da squadra azzurra no Mundia2018 e assim bater o recorde do seu compatriota Dino Zoff, que também esteve na baliza italiana na fase final de um Mundial, em 1982, com 40 anos. Mas relativamente a fases finais de Europeus, o guarda-redes da Juventus assume como provável que este seja o seu adeus.

Na mesma linha estarão o francês Evra (35 anos), o checo Rosicky (35), o irlandês Robbie Keane (35), o sueco Ibrahimovic (34) ou os espanhós Casillas (35) e Iniesta (32). Porque o tempo tende a não perdoar. E na cabeça de todos eles, com a despedida no horizonte, estará seguramente a ideia de fazê-lo em beleza. Com um Europeu em cheio, de preferência com a taça nas mãos.

Todos sabem também, no entanto, que esse cenário de sonho raramente se concretiza. Mesmo para aqueles que já tiveram a oportunidade de saborear a glória ao serviço das suas seleções, o adeus à camisola do seu país nem sempre ocorre com esse desejado triunfo. E há mesmo casos em que a despedida nem sequer atinge os mínimos olímpicos da dignidade.

Entre os casos mais flagrantes de despedidas negras em fases finais, três das mais emblemáticas ocorreram em Mundiais. O adeus de Zidane em 2006 com a expulsão na final frente à Itália (após agressão à cabeçada a Materazzi), a súbita despedida de Maradona no Mundial de 1994, depois de acusar positivo num controlo anti-doping, e a inopinada saída de cena de João Pinto, menino de ouro da geração de ouro, que estava longe de imaginar que se ia despedir da seleção, segundo antes de ter decidido agredir um árbitro num jogo com a Coreia do Sul no Mundial de 2002. Foi suspenso pela FIFA e nunca mais vestiu a camisola das quinas.

Mas há também situações menos ‘bonitas’, chamemos-lhe assim, em Europeus. E uma delas até teve um português como personagem secundária.

Em 2000, Gheorghe Hagi, a estrela da Roménia que tinha o cognome de Maradona dos Cárpatos, já tinha anunciado que a fase final do Europeu disputado nesse ano na Bélgica e na Holanda marcaria a sua despedida da seleção que capitaneava, onde tinha jogado mais de 120 vezes e marcado 35 golos.

O plano estava a correr bem a Hagi e aos romenos que, inseridos no grupo de Portugal, Inglaterra e Alemanha, conseguiram apurar-se para os quartos-de-final. Até que nesse jogo, frente à Itália, e a perder por 2-0 ao intervalo, Hagi terá entendido que uma derrota igual a tantas outras derrotas não serviria os propósitos de uma despedida mítica.

Vai daí, aos 55 minutos tem uma entrada despropositada e violenta sobre António Conte que lhe deveria ter valido o cartão vermelho direto. Apesar de Conte se ter lesionado e não ter jogado mais nesse Europeu (despedindo-se assim também da seleção italiana em fases finais), o árbitro português Vítor Pereira decidiu ter mão leve e punir o romeno apenas com o amarelo. Mas nem cinco minutos depois Hagi resolve acertar as contas com o cosmos: simula uma falta na área italiana para ‘sacar’ um penalty, vê o segundo amarelo e o respetivo vermelho. Ato contínuo, Hagi faz o seu papel de mártir. Protesta. Reclama que era mesmo penalty, mas não era mesmo penalty. Sai indignado. Injustiçado. E nunca mais volta, como estava previsto. Fim.