Euro 2016

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Calma, que isto não acaba hoje

No "Na Gaveta" de hoje fala-se dos primeiros jogos em Europeus e de como nem sempre arracar mal significa terminar pior

Adriano Nobre

Ena pá, o Helveg, lembra-se? Dinamarca-Portugal, em 96

Fotot JANEK SKARZYNSKI/Getty

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Hoje que Portugal entra em jogo, é normal que nos venha à memória uma frase batida. Não, não é sobre o primeiro dia do resto das nossas vidas; é mais sobre o bom que seria começarmos com o pé direito.

Seria bom porque é obviamente preferível começar com uma vitória. Mas também porque, por muito politicamente incorreto que isto possa soar no futebol moderno – onde “já não há equipas fáceis” – será difícil convencer a maioria dos portugueses que fez sentido não ganharmos à Islândia.

Um dos efeitos colaterais de um eventual deslize no jogo de hoje será o retorno da eterna ladainha da “máquina de calcular”. Desataremos todos a fazer contas, a olhar para o calendário e a defender que é sempre assim, que temos sempre de fazer contas. Não é bem verdade (a história prova-nos que isso é mais vezes mentira do que verdade), mas mesmo que assim fosse, não viria daí mal ao mundo. A história também prova isso.

Nas seis fases finais de europeus em que participou, Portugal já experimentou vários humores nas suas estreias: teve dois empates, duas vitórias e duas derrotas. Empatou 0-0 com a RFA em 1984 e 1-1 com a Dinamarca em 1996; ganhou 3-2 à Inglaterra em 2000 e 2-0 à Turquia em 2008; perdeu 1-2 com a Grécia em 2004 e 0-1 com a Alemanha em 2012. E apesar desta diversidade de tendências, houve um resultado que nunca mudou: Portugal passou sempre a fase de grupos do Europeu, independentemente do desfecho no primeiro jogo.

Naturalmente que todos dispensamos a ansiedade do “mata-mata”, como lhe chamou Scolari, logo a partir do segundo jogo da prova. Mas não é preciso que o país passe da euforia à depressão no caso de hoje haver algum solavanco no otimismo.

Até porque, estando longe de ser recorrente – aconteceu apenas três vezes nas nove edições de Europeus com fases de grupos – há inclusive casos de seleções que acabaram por sagrar-se campeãs em edições cujo arranque não lhes correu de feição. A Holanda de Van Basten, Gullit e Rijkard, que em 1988 se estreou com uma derrota frente à URSSA (0-1); a Dinamarca de Schmeichel e Brian Laudrup que em 1992 arrancou com um nulo frente a Inglaterra (0-0); e a Espanha da Xavi e Iniesta, campeã em título, que em 2012 empatou 1-1 com a Itália no seu jogo inaugural.

Entre estes três casos, os pessimistas crónicos podem inclusive centrar-se no exemplo da Dinamarca de 1992, que só venceu o último dos seus três jogos da fase de grupos. Depois de empatar no jogo de estreia, perdeu o segundo com a Suécia (0-1) e só se apurou para as meias-finais no limite, depois de vencer a França por 2-1. Aliás, a Dinamarca desse ano conseguiu o feito de sagrar-se campeã europeia vencendo apenas dois dos cinco jogos que disputou, dado que nas meias-finais só bateu a Holanda nos penalties. Ora, se isto foi possível, porque é que não será possível ganharmos o Europeu mesmo que não ganhemos hoje à Islândia?