Euro 2016

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“Comparar Éder a Jordão é escolher entre um grande tinto e um tinto corriqueiro”

Álvaro Magalhães esteve no Euro 1984 de França e conta ao Expresso como correu essa aventura

Isabel Paulo

Foto Rui Duarte Silva

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Hoje, 14 de junho, dia do pontapé de saída da seleção nacional no Euro, faz precisamente 32 anos que Portugal jogou o seu primeiro jogo na fase final de um Europeu, por coincidência em terras gaulesas. A partida de estreia foi em Estrasburgo, frente à poderosa República Federal Alemã, campeã em título. Álvaro Magalhães, do Benfica, eleito pela UEFA o melhor defesa esquerdo do Europeu de 84, recorda as peripécias da equipa na prova que culminou numa meia-final épica contra a França de Platini, o desmancha-prazeres das ilusões lusas aos 119 minutos do prolongamento. O agora treinador do Gil Vicente acredita que temos seleção para ter ambição, mesmo em tempo de crise de pontas de lança, muitos e bons nos idos de 1984.

Qual é a sua maior recordação do nosso primeiro Europeu? O orgulho que senti quando fui escolhido para ir ao Europeu, que era um feito inédito. Tinha acabado de ser campeão nacional e vencer a Taça de Portugal pelo Benfica e, claro, que estava à espera de ser um dos selecionados. Foi uma das melhores épocas, se calhar até a melhor, da minha carreira. Nessa altura, tive o privilégio de ter um treinador como o Ericksson, que tinha métodos de treino 10 ou 15 anos à frente do que faziam as outras equipas em Portugal.

Sentiam-se como um dos favoritos? Não, apesar de sermos uma grande equipa. O Benfica tinha sido vice-campeão da Taça UEFA no ano anterior e o FC Porto acabava de jogar a final da Taça das Taça finalista contra a Juventus, que tinha um dos grandes pontas de lança da altura, o Fernando Gomes que já era bota de ouro. Éramos estreantes e íamos jogar frente a adversários poderosos, como a RFA e a Espanha, equipas contra quem empatámos antes da vitória com a Roménia, que nos levou às meias-finais.

Por causa da guerra de cores FC Porto/Benfica, a seleção tinha não um selecionador mas quatro treinadores. Os gauleses não achavam que os portugueses deviam ser loucos? Ouvia-se um ou outro comentário dos jornalistas, que talvez pensassem que seríamos um pouco estranhos. Foi a maneira que a federação arranjou para haver paz na seleção e agradar aos dois principais blocos adversários da altura. Fernando Cabrita era o porta-voz, que tinha o José Augusto e Toni do lado do Benfica e António Morais que representava o FC Porto...

Essa divisão sentia-se no dia a dia no estágio e no balneário? A esmagadora maioria dos jogadores eram do Benfica e do FC Porto e do Sporting era o Jordão. Não me lembro de cenas desagradáveis entre nós, mas é verdade que nós, jogadores do Benfica, convivíamos mais entre nós, e o mesmo em relação aos do Porto.

Com quem dividia o quarto? Com o Diamantino, que era ótimo colega. Quem decidia era a equipa técnica, embora em geral soubessem com quem queríamos ficar. Claro que havia pressão porque todos queríamos ser titulares e não era fácil chegar a acordo entre os quatro técnicos...

Um dos motivos de discórdia de António Morais em relação à restante equipa técnica era o Fernando Gomes, que só entrou no final do jogo com a RFA... A equipa técnica escolhia o que entendia ser melhor para a equipa, o que nunca é fácil e na altura ainda mais pois, ao contrário de agora, o que não faltavam eram grandes pontas de lança: além do Gomes, tínhamos o Nené, que marcou o golo contra a Roménia e nos garantiu a meia-final, o Jordão que marcou o golo do empate com a França, e nos deu a vantagem no prolongamento, até Platini nos dar cabo do sonho. E não faltaram críticas por o Oliveira, o Shéu e o Manuel Fernandes não terem sido convocados...

Agora, ponta de lança de raiz temos o Éder, com dois golos na seleção. Dá-nos segurança? O Éder que me desculpe, mas compará-lo com o Jordão é como comparar um grande vinho tinto com um tinto corriqueiro. O que não significa que não tenhamos uma boa seleção e grandes jogadores.

Como é que passamos de um problema de abundância para uma crise de pontas de lança? Devido à falta de paciência dos dirigentes, que apostam tudo no imediato. Apostam em estrangeiros em vez de apostarem no que é nosso. Um ponta de lança não se faz de um dia para o outro, é preciso dar tempo ao tempo, pô-los a jogar com frequência para ganharem experiência e confiança. Que é o que o FC porto deve fazer com o André Silva...

Devia ter ido ao Europeu? O meu amigo Fernando Santos que me desculpe, mas se calhar devia ter arriscado, mesmo que o FC porto o tenha posto a jogar na equipa B. Provou no final da taça que tem raça de ponta de lança.

Até onde pode ir a nossa seleção? Acredito que podemos ir longe. Até à final, desde que encarem com respeito todos os adversários, mesmo os teoricamente mais fracos, como a Islândia, o nosso primeiro adversário e que se estreia nestas andanças. Há valor, temos organização e um selecionador competente.

Está confiante que vai treinar o Gil Vicente na I Liga? Acredito que sim. É uma questão de justiça.