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Hoje somos todos

"O coração também respira" é uma coleção de histórias de ficção de Jorge Araújo, que são crónicas do quotidiano com gente e futebol lá dentro.

Jorge Araújo

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Àquela hora, o silêncio fala. Um gato peludo espreguiça-se num telhado, folhas cansadas divorciam-se de uma árvore, uma dobradiça geme desconforto. Passos vagarosos afagam o que resta da escuridão. O caminhar enferrujado dos ponteiros do relógio de pulso, a suave badalada da respiração, o ressonar num sopro. Àquela hora, qualquer ruído, nem precisa de ser atrevido, tem o dom da palavra.

É a hora a que ela acorda. Seis em ponto, dia sim, dia sim, nem agora que está amarrada a uma cama escapa à força do hábito. Abraça o travesseiro, fiel companheiro, agora sim, apanhou-lhe o jeito, as pálpebras agradecem, continuam a dormitar. Vira-se, encolhe-se, enrosca-se, continua a batalhar pela melhor posição na cama. Para. Rodopia o corpo esguio, os braços esvoaçam no vazio, asas cintilantes a flutuar no purgatório.

Concentra-se no sonho, o último, o que tenta forçar a barragem do pensamento, algumas imagens são coloridas, outras nem por isso. Tenta agarrar as mais saborosas, mas não consegue recordar o filme que acabara de estrear na sua cabeça. Por mais que se esforce, acorda sempre órfã de memórias.

Levanta-se a custo, as pernas acusam a falta de uso, o corpo não obedece. Cambaleia um pouco, tempo de recuperar o equilíbrio, segurar as rédeas do raciocínio. Esbarra contra um espanta espíritos, arrasta as varizes pelo corredor, uma paragem na cozinha para acender o esquentador. Consumidos pela humidade, os tristes fósforos riscam um sorriso iluminado. A casa de banho fria, bem lá ao fundo do corredor.

A higiene matinal numa questão de minutos – escovou a dentadura alva, tomou um duche morno. Nem sequer apalpou os seios, precaução recente, ganha à conta da avalanche de notícias sobre o cancro da mama. Demorou-se um pouco a espalhar creme pelo corpo, mimou as axilas com um toque de desodorizante, sem álcool por causa de uma alergia, engalanou o pescoço com dois pingos de perfume barato, maravilha da drogaria de um paquistanês. Nunca mais do que dois, o aroma demasiado intenso.

Ele acordou com o barulho vindo da casa de banho. Estranhou. O que seria? A mulher certamente que não, há anos que não se levanta da cama, à conta de um par de hérnias mal curado. Um ladrão? Também não, nada há para roubar na casa de banho de dois velhos. Virou-se na cama, procurou a sua Marcolina, mas os braços nada encontraram. Milagre, pensou.

Depois de milhares de Pais-Nossos, outras tantas Avés-Maria e várias idas a Fátima, as suas preces finalmente atendidas. A mulher deixara de ser escrava de um corpo desobediente. Abel deixou-se ficar mais um tanto na cama, a saborear o momento. Mais do que um milagre, era um sinal divino. Só podia ser. De repente, deixara de se importar com a lesão de Ricardo Quaresma. A única recuperação que contava era a da sua menina. Uma grande notícia para a seleção que, quando esta noite se estrear no Europeu, poderá contar com o seu apoio. Afinal, hoje somos todos. E ele não tem dúvidas – Marcolina está melhor e, logo à noite, até comemos a Islândia de cebolada.