Euro 2016

Perfil

O que és tu, Ronaldo?

A horas do Portugal-Islândia (20h) há um tipo que tem um ajuste de contas a fazer com a história. Com a história dele

Pedro Candeias

CHRISTIAN BRUNA / EPA

Partilhar

É virtualmente impossível não saber quem é Ronaldo. O tipo tem 200 milhões de seguidores nas redes sociais, faz publicidade ao anti-caspa, ao relógio, à roupa exterior e interior, aos sapatos e aos ténis, ao banco mau e ao banco bom, à operadora de TV, à programadora de jogos de computador, aos aparelhos de ginástica facial (seja lá o que isso for), à transportadora aérea. E é o melhor jogador da história do maior clube do Mundo, que marca golos ao ritmo dos jogos que disputa, chegando a ter mais golos somados do que muita gente ilustre tem jogos contabilizados nas pernas.

A única forma de escapar a Ronaldo seria vivendo sitiado num bunker e com uma escolha muito criteriosa sobre o que lá entrava, não fossem entregar aquelas bebidas energéticas ou aqueles refrigerantes ou as asinhas de frango com a cara dele; o telemóvel, a televisão, a rádio, o iPad, ficariam à porta - todas as comunicações com o mundo exterior tinham de ser cortadas.

Ronaldo tem o rosto, o tronco e os abdominais, vá, mais conhecidos do planeta e ele faz por se mostrar, criando uma proximidade ilusória que lhe rende milhões de fãs e lhe acrescenta outros tantos na conta bancária. O CR7 é o atleta mais bem pago do mundo. E o mais conhecido do mundo.

E o que é Ronaldo? É um extremo que joga como avançado, um avançado que joga cada vez menos mas marca cada vez mais. Um futebolista que celebra sozinho os títulos coletivos e agradece aos colegas quando conquista os títulos individuais. O capitão que diz que se todos fossem como ele o Campeonato do Mundo de 2014 teria sido diferente - e o capitão a quem todos se rendem por ser o único capaz de derrotar o mundo. A estrela por quem outras estrelas menores se apagam só para participarem num spot que mais parece uma curta-metragem sobre o tema Ronaldo. O poder do CR7 vai muito além daquilo que ele faz em campo, dos amuos quando joga pingue-pongue com os companheiros, da escolha da cor das chuteiras dos colegas equipados pela mesma marca do que ele.

Ronado faz acontecer coisas, é verdade, mas também daquelas coisas,contrassensos que não se percebem, que não parecem fazer sentido em outro lugar a não ser na cabeça dele: as férias no iate enquanto os outros já davam no duro; as viagens a Marrocos a meio da semana; a presença constante nos eventos publicitários; as fotografias peculiares no Instagram a relaxar junto à piscina com os seus headphones gigantescos; a assunção de que é o melhor futebolista dos últimos 20 anos quando os números e os títulos dizem que há outros, ou outro, a quem se deve comparar.

Mas a Ronaldo perdoa-se tudo porque tudo resulta e em última análise é capaz de tudo - por exemplo, cilindrar uma equipa inteira sozinho quando está naqueles dias. Hoje seria um bom dia para isso.