Euro 2016

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Raios nos partam se...

Pedro Santos Guerreiro, diretor do Expresso, escreve sobre Portugal neste e nos outros Europeus

Pedro Santos Guerreiro

Hoje pode ser dia de Ronaldo, tal como foi noite de Ronaldo naquele hat trick contra a Suécia que levou Portugal ao Mundial 2014

Foto JONATHAN NACKSTRAND/Getty

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Desgraçado do Modríc, que já marcou o golo do Euro e Portugal ainda não entrou em campo. Desgraçado do Payet, que antes do golo de bandeira do Modríc já tinha marcado o que seria o golo do Euro e Portugal mal tinha posto o pé em França. Raios nos partam se não marcamos o golo do Euro que arrume o do Luka que arrumou o do Dimitri.

Sim, porque a nós não há de bastar ganhar, ganhar ou perder terá de ser épico, ser português é sofrer mas ser Portugal é ser herói mais que ser vencedor, haveremos de marcar golos de bandeira, pontapés em folha, moinhos, bicicletas, do meio da rua, sem ângulo, fazer o losango, jogar com o coração, ao pé do peito, com o peito do pé, desenhar trivelas, galgar caravelas, haveremos de acender velas às toadas, revoadas, trovoadas, estar a perder 0-2 só para ganhar 3-2, ir a penaltis só para ver guarda-redes a defender sem luvas e a marcar depois, ir pela quinta vez às meias para querer ir pela segunda vez à final para sonhar pela primeira vez ganhar.

Não somos os melhores mas somos os maiores. Ou não. Mas sim. A poucas horas de entrarmos não pensamos em sair. Por que não? Porque sim.
Antes de entrarmos é permitido tudo, estamos entendidos? A partir de hoje escreveremos sobre a realidade havida, até lá é sobre a realidade por haver. I

Inclusive sobre aquela que já ficou por haver.

Por exemplo, o Rui Costa em 2004, aquele golão contra a Inglaterra, aquela corrida falconiana de frente para a câmara, aquele penalti gritado e depois na derrota o mesmo Rui Costa naquele choro eusébico, primeira página dos jornais no dia seguinte, contra a Grécia, raios partam o jogo da Grécia, perdemos a final, água fria sob o sol quente, por uns momentos Lisboa passou da Malásia para a Sibéria, nos momentos seguintes a glória já era para sempre, escrita e descrita como epitáfio em textos lápides de memórias póstumas.

E isto foi póstumo em relação a 2000, outro Euro de amor amor amor, que perdemos o que o que tínhamos nas mãos na mão de Abel Xavier, o penalti mais óbvio de sempre que obviamente teimámos em não ver, cegos vendo peito bravo onde era braço feito, não era possível vermo-nos perder daquela maneira depois de tanto zzzum! de Figo, de tanto bam! de Sérgio Conceição, de tanto pow! de Nuno Gomes, de outra vez contra a Inglaterra passarmos de presa a caçador, alma nova depois de quatro anos antes termos perdido de rastos a ver o chapéu de Poborski passar-nos por cima, e nós calados, aquele golo não se discute, e assim foi uma derrota antoma, nós vivos sem grito, como noutra meia final, a mais recente, a de 2012 contra a Espanha, a mais indecente para a nossa galeria de ternuras porque não teve história nem glória nem fúria nem ardor, uma meia meia-final, a quarta da galeria mas única com moldura sem retrato, tão longe da brutalidade da primeira, contra a França, a França, Chalana e Platini.

Chalana e Platini, o de 84 foi "o meu primeiro Euro" que foi o primeiro Euro de todos nós, que nunca antes tínhamos ido à fase final, tudo agarrado à televisão no jogo mais emocionante da memória televisionada, aos gritos em casa, nos cafés, nos parques das cidades com telas gigantes, Chalana a lavrar como um arado, Jordão a marcar, prolongamento, 2-1 para nós, empate e a malta grita comendo as palavras, "quésta merda, meu?!", saltos no ar, molhos atrás da bola, sulcos na relva, está quase a acabar, bola na nossa área, é o último minuto, Platini carrega o ataque, estamos aflitos, aguentem, é mais um minuto e isto acaba, não deixem isto acabar um minuto antes do fim, Platini, bola, para com um pé, puxa do outro e...

Raios os partam.

França. 2016. Modríc já aviou um. Payet já ataviou outro. Hoje começamos nós. Ronaldo, Quaresma, João Mário... Um meio campo de sonho. Um grupo fácil fácil. Iremos longe? Como uns heróis? Para muitos miúdos este será o primeiro Euro das suas vidas. Queremos o mesmo filão: que este seja o primeiro Euro das nossas vidas. Depois de quatro meias e de duas finas. Basta que seja o primeiro em que...

O que será possível se... Raios nos partam se... Raios nos partam se...