Euro 2016

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Um jogo, dois resultados: uma vitória para eles, uma derrota para nós

Para eles já era bom estar aqui. Para nós o bom seria estar na final. Portugal esteve em vantagem perante a pequena e estreante Islândia no Euro, mas acabou por se deixar empatar. E nunca mais recuperou o controlo (1-1)

Foto JEFF PACHOUD/Getty

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Quando saí do hotel, a pouco mais de 10 km de Saint-Étienne, para ir para o estádio Geoffroy-Guichard, a meio da tarde, acabei a dividir um táxi com um casal de islandeses, dada a falta de transportes numa cidade claramente pequena demais para tanta agitação. Ora os dois islandeses - que me disseram os nomes mas o melhor será não tentar escrevê-los porque iria certamente errar de forma clamorosa - diziam-me que não tinham lá grande esperança de ganhar a Portugal. É que, explicavam eles, quase todos os 330 mil habitantes islandeses já estavam esfuziantes com esta qualificação inédita de um país que há pouco mais de uma década mal sabia dar um pontapé numa bola.

A questão é que o futebol é, numa sua essência, um jogo muito simples na sua complexidade e os islandeses não o podiam simplificar mais do que aquilo que fazem: um guarda-redes, uma linha de quatro defesas, uma linha de quatro médios e dois avançados na frente. Defendem mais do que atacam, porque não têm qualidade técnica para grandes desvarios - com exceção para o médio Sigurdsson, do Swansea -, e quando atacam lançam a bola bem longa lá para a frente, para que, entre os avançados Sigthórsson e Bödvarsson, um a ganhe e outro a receba.

Foi entre a satisfação por estar num Euro e a simplicidade de um modelo de jogo que a Islândia conseguiu começar o jogo a todo o gás, assustando Portugal - esta noite com a equipa mais ou menos esperada: Patrício, Vieirinha, Pepe, Carvalho, Guerreiro, Danilo, Moutinho, João Mário, André Gomes, Ronaldo e Nani. O barulho ensurdecedor dos nove mil islandeses nas bancadas e a velocidade com que lançavam bolas longas nos corredores laterais portugueses - especialmente no direito, o que obrigou Fernando Santos a trocar João Mário por André Gomes, para ajudar Vieirinha - abanou Portugal, que teve Patrício a defender dois remates perigosos de Sigurdsson.

Portugal demorou a conseguir controlar o jogo, mas começou a fazê-lo quando um cabeceamento de Nani foi defendido com os pés - à andebol - pelo guarda-redes Halldórsson, um tipo que para além de futebolista também é realizador de cinema (a sério). Nani, juntamente com André Gomes, foi dos jogadores mais esclarecidos de Portugal na 1ª parte, procurando sempre os espaços certos junto da bola para apoiar os colegas que vinham de trás.

Foi precisamente num movimento perfeito de Nani - mas na área - que Portugal chegou ao golo, aos 31 minutos, já depois de Vieirinha e Ronaldo também terem criado algum perigo. No melhor momento de Portugal, André Gomes recebeu no meio - entrelinhas, onde faltou muitas vezes gente, já que Moutinho esteve muito apagado, assim como João Mário -, combinou com Vieirinha na direita e depois assistiu Nani para a concretização de uma jogada perfeita.

A partir daí, Portugal passou a controlar a Islândia, que pouco mais fazia do que defender e só voltou à área portuguesa bem perto do intervalo. Bola cá, bola lá, ainda que sem grande verticalidade, Portugal acabou a 1ª parte confiante e com 72% (!) de posse de bola. O jogo que se via estava bem espelhado nos exercícios que os suplentes iam fazendo durante o intervalo: os islandeses iam batendo bolas bem longas uns para os outros, os portugueses estavam bem juntinhos a manter a bola sempre no ar, sem tocar no chão, dominando com um toque e passando com outro. Era tudo nosso.

Foto FRANCISCO LEONG/Getty

Era, mas não foi. Porque os islandeses podem estar contentes de estar no Euro, sim, mas não são nenhuns coitadinhos. Sabem o que têm de fazer e dão tudo o que tem: basta ver pela fase de qualificação, na qual derrotaram Holanda e Turquia. A segunda parte ainda mal tinha começado quando houve história no Geoffroy-Guichard: depois de um cruzamento largo de Gudmundsson pelo corredor esquerdo português, Pepe desposiciona-se e desposiciona ao mesmo tempo Vieirinha, e Bjarnason fica sozinho para marcar o primeiro golo islandês num Europeu.

Foi um choque para Portugal e nem as alterações que Fernando Santos foi fazendo - Moutinho por Renato, João Mário por Quaresma e, já perto do final, André Gomes por Éder - deram à equipa o que sempre foi procurando, a maioria das vezes contra onze jogadores atrás da linha da bola: o golo.

Quaresma tentou, Ronaldo (que hoje igualou as 127 internacionalizações de Figo) também, mas o sufoco português nunca foi particularmente esclarecido e nunca deu em golo - e Rui Patrício ainda safou um remate perigoso de Finnbogason. A acabar, Ronaldo - em noite pouco feliz - bateu dois livres seguidos contra a barreira e o árbitro acabou o jogo. E Ronaldo, de cabeça baixa, ainda levou com a bola na cabeça. E Portugal levou com uma balde de água fria.

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