Euro 2016

Perfil

Uma sorte de Király*

A Hungria venceu por 2-0 a Áustria no primeiro jogo do grupo F (o mesmo de Portugal) e mostrou que não está no Europeu só para fazer figura de corpo presente

Pedro Candeias

Foto Dean Mouhtaropoulos/Getty

Partilhar

Um arranque factual: a Áustria chegou ao Euro 2016 ao classificar-se no primeiro lugar de um grupo que tinha a Rússia, a Suécia e Montenegro, marcando 22 golos e sofrendo apenas 5, ganhando 9 jogos, empatando um, perdendo nenhum. Ora, como a Rússia e a Suécia estão ambas no Europeu, há duas conclusões a retirar daqui: ou correu tudo bem aos austríacos e tudo mal aos seus adversários durante a qualificação; ou os austríacos são mesmo bons como pintam os números. E os nomes. É que pela Áustria jogam Arnautovic (Stoke), Alaba (Bayern), Junuzovic (Werder Bremen), Janko (Basileia) ou Fuchs (Leicester).

Da teoria à prática, nada como testar a estatística numa competição a sério, onde os pontos que se perdem são praticamente irrecuperáveis - onde a pressão é maior. Nestas estreias em torneios, o melhor é apanhar uma seleção mixuruca, que não obrigue a muito, apenas o suficiente para perceber como estão as forças e esconder as fraquezas. Apareceu a Hungria - e tudo pareceu mais fácil.

É que a Hungria chegara ao Europeu ao ultrapassar a Noruega no playoff, porque ficara em terceiro lugar de um grupo que tinha, coff coff, a Irlanda do Norte e a Roménia. Quatro vitórias, quatro empates, duas derrotas, 11 golos marcados e nove sofridos. Resumindo, a Hungria apareceu como favorita à colher de pau, aquele troféu das Seis Nações de Râguebi. E digo râguebi porque achávamos que isto, com os húngaros, era de pontapé para a frente e pontaria aos postes. Dos primeiros, nem vê-los; e Almer, o guarda-redes austríaco, viu remates a rasarem-lhe os postes e até um golo levou de Szalai, após uma boa triangulação com Dzsudzák.

O lance sintetizou esta Hungria: certinha como um relógio, com bons movimentos e boa intensidade, sacrifício e segurança defensiva. Podem não ter craques que partam um jogo em lances de um contra um, como Alaba e Arnautovic (ainda que o mauzão Arnautovic parta mais coisas do que apenas o jogo), mas funcionam em equipa. E isso permite que a equipa não sofra os golos o que poderia sofrer e marque os que poderia marcar. Acabou 2-0 e Király, o guarda-redes de 40 anos com calças de fato de treino saídas de um equipamento de andebol, saiu com a folha limpa.

*O título da crónica é inspirado no blog Azar do Kralj