Euro 2016

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Como é que estes nomes vieram parar ao Euro?

A história do Salassie checo, do Nainggolan belga e do Olatokunbo austríaco - ou como Indonésia, Etiópia, Nigéria e Filipinas também pertencem ao Campeonato da Europa

Rui Antunes

Dean Mouhtaropoulos / GettyImages

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Do lado dos naturalizados, há o Képler em Portugal (Pepe), o Guilherme na Rússia ou o Djourou na Suíça. Mas há jogadores cujos nomes são estranhos às seleções que representam e, no entanto, nasceram no país que os faz correr no Euro 2016. Zlatan Ibrahimovic, o sueco de Malmo com pais da ex-Jugoslávia, é o mais conhecido deste "plantel" que conta com o italiano El Shaarawy (pai egípcio) e os alemães Boateng (ascendência ganesa) e Mustafi (raízes albanesas). São os filhos da migração, como o Salassie checo, o Nainggolan belga e o Olatokunbo austríaco. Como é que eles chegaram ao Europeu se mais ninguém se chama assim em Trebic, Antuérpia e Viena?

Gebre Selassie

© Sergio Perez / Reuters

Um médico etíope, acabado de se formar, é convidado a exercer na então Checoslováquia comunista e apaixona-se por uma professora checa. Dessa união nasce em 1986, na cidade de Trebic, o fruto que anos mais tarde, já muito depois da queda do muro de Berlim, se há de tornar o primeiro negro na seleção de futebol da República Checa. Esta é a história de Theodor.

"Ainda bem que sou diferente. Pelo menos dou mais nas vistas, se bem que isso é uma desvantagem quando jogo mal", disse o defesa de sorriso fácil antes da estreia no Europeu de 2012.

O apelido do pai de Theodor é famoso na Etiópia. O imperador que governou o país africano de 1930 a 1974 chamava-se Haile Selassie e, no desporto, Haile Gebrselassie tornou-se um herói nacional ao vencer os 10.000 metros nos Jogos Olímpicos de 1996 e 2000.

Já na República Checa, Selassie é sinónimo de lateral direito da equipa nacional. Pode não ser um checo de gema, mas é essa a sua pátria, por muito que alguns radicais tenham dificuldade em aceitar e sigam a via do insulto.

"Lamento que assim seja. Eu nasci na República Checa e vivi aqui toda a minha vida. Só estive uma vez na Etiópia, quando tinha dois anos", salientou em tempos o jogador, para refrear os críticos com o exemplo de Barack Obama: "Há um negro à frente do país mais poderoso do mundo e parece-me que se fala demasiado sobre o facto de eu jogar pela equipa de futebol da República Checa".

Radja Nainggolan

Carlos Rodrigues

Radja significa rei na Indonésia, mas o médio de 28 anos nunca quis representar o país de origem do pai. Foi lá pela primeira vez há três anos, com o intuito de reencontrar o seu progenitor, Marianus Nainggolan, que o abandonou, a ele e à sua irmã gémea, quando tinham seis anos. À época viviam na Bélgica, de onde a mãe era natural, e ficaram aos cuidados dela.

"De repente, depois de anos de tentativas inconsequentes para tentar chegar à fala com ele, o meu pai estava ali à minha frente. As desculpas que deu para nos ter deixado 20 anos antes não fizeram qualquer sentido para mim", relatou o jogador da Roma, em 2015, à revista semanal da FIFA. "Ele falou, falou, mas eu só conseguia pensar na minha mãe, que ficou por sua conta e tanto se esforçou para cuidar de duas crianças pequenas. Não tenho vergonha de dizer que desde essa altura que sei o que é ser mesmo pobre."

A mãe de Radja chegou a ter dois empregos para sustentar as crianças e quando morreu, em 2010, o jogador da Roma tatuou nas costas as datas de nascimento e da morte da mulher que o criou sozinha.

O visual excêntrico, com penteado à moicano, múltiplas tatuagens e brincos, levou a polícia à procura dele em novembro do ano passado. Corria uma operação de caça aos terroristas, na semana seguinte aos atentados de Paris, e alguém chamou as autoridades quando o viu num hotel. Falso alarme: os polícias reconheceram-no da equipa nacional e só lhe pediram que posasse para a fotografia ao lado deles.

Nascido em Antuérpia, Radja é belga desde pequenino e é essa a seleção que escolheu defender. A sua filha de quatro anos, Aysha Nainggolan, carrega o mesmo apelido indonésio do lado do avô paterno, mas é cidadã da Bélgica como o pai e a avó.

David Alaba

David Rogers

Olatokunbo é o nome do meio de David Alaba. Soa mais a tribo africana do que a música de Viena porque o seu pai é natural da Nigéria.

Em 1984, George Olatokunbo Alaba foi estudar para a Áustria, a convite de um familiar de uma colega de turma que dava aulas na universidade na capital austríaca e os desafiou a prosseguirem os estudos na Europa. Tentou os cursos de gestão e economia, mas a música desviou-o dos livros e deu-lhe uma carreira, intercalada com 15 minutos de fama nas forças armadas. Depois de obter a cidadania, em meados dos anos 90, tornou-se o primeiro soldado negro no exército austríaco. "Fizeram um documentário sobre mim", recordou numa entrevista recente.

O filho David também haveria de quebrar barreiras, mas no futebol, concretamente ao serviço da seleção. Com a idade de 17 anos e 112 dias, tornou-se, em outubro de 2009, o jogador mais jovem de sempre a alinhar na equipa nacional.

Podia ter escolhido a Nigéria ou as Filipinas. Foi daqui que partiu para o país de Mozart e Beethoven a enfermeira Gina, precisamente no mesmo ano em que George chegou a Viena. Conheceram-se quatro anos mais tarde e David foi o primeiro dos dois filhos do casal. O pai editou discos e foi DJ num clube noturno até assumir a tempo inteiro o papel de empresário do filho e a mãe deixou há pouco tempo a casa de repouso onde trabalhava.