Euro 2016

Perfil

Fogo de vista

"O coração também respira" é uma coleção de histórias de ficção de Jorge Araújo, que são crónicas do quotidiano com gente e futebol lá dentro

Jorge Araújo

Partilhar

O bairro em carne viva. É ferida recente, leva tempo a cicatrizar. Desde que levaram o António, que se descobriu que o carteiro gostava de criancinhas, é um falatório sem fim. Ninguém compreende como foi possível conviver durante tantos anos com um monstro, sem ter dado por nada. Ainda por cima diz-se que pode haver mais gente envolvida, ele é apenas o chefe da quadrilha. O rumor é pasto para o boato.

Ainda bem que Portugal entrou em campo no Europeu, um pouco de energia positiva sempre ajuda a desanuviar o ambiente. Ao menos durante noventa minutos os vizinhos declaram tréguas. Mas o bairro já não é o que era, a prisão do pedófilo não deixou pedra sobre pedra,adeus bons velhos tempos.

Como era de esperar o café do Abel rebentava pelas costuras, lotação mais do que esgotada, os últimos a chegar tiveram que estacionar no passeio. Não se importaram, vieram mais para beber do que para ver, não havia razão para preocupações. Os comentadores desportivos eram unânimes, os islandeses estavam no papo. Têm obrigação de saber do que falam, ganham fortunas para dar palpites na televisão.

Abel estava nas suas sete quintas. A imperial corria fresquinha, as entremeadas no ponto, pires de tremoços estrategicamente colocados no balcão. André, eterno ajudante em dia de casa cheia, só muito a custo conseguia dar conta do recado, coitado, tem uma deficiência na perna direita, é coxo, mas isso era como se dizia no antigamente, agora fica mal, não é politicamente correcto.

O jogo ainda nem sequer tinha começado e mais parecia que já tinha acabado. Só se ouviam gritos, cânticos de vitória. O ambiente ao rubro, cachecóis ao vento. Portugal, Portugal, Portugal, gritava o Duarte. Vamos em força para cima deles, aconselhava o Isaías. Era como se os outros estavam ali a fazer figura de corpo presente, figurantes da festa lusitana.

Foi então que um islandês desatou a correr pelo lado esquerdo, culpa do Pepe e dos seus pezinhos de lãs, logo ele que nunca foi homem de muita cerimónia. Se ao menos fosse o Bruno Alves, pensou Isaías, o segurança, levava uma cacetada valente, voava até à terra dele. Os músculos no lugar do cérebro.

Por sorte foi apenas um susto, a selecção recuperou o passo em falso, não demorou a marcar. O café de novo aos gritos, aos abraços, a casa quase vinha abaixo. André, o coxo de serviço, foi apanhado no meio da confusão, perdeu o pé, por azar o único que ainda tem alguma serventia. Por pouco a bandeja com as imperiais não ia desta para melhor.

Foi então que o árbitro apitou para o intervalo. Tempo para fumar, reabastecer a garganta com cerveja, aconchegar o estômago com uma boa sandes de entremeada. Num dos cantos, Duarte e Isaías em amena cavaqueira, o futebol tem destas coisas, junta inimigos daquela estirpe.

O estado de graça durou pouco. Portugal sofreu um golo, Cristiano Ronaldo começou a esbracejar, a reclamar por tudo e por nada, e isso nunca é bom sinal, é sinal que não tem mais nada para dizer. O Renato Sanches ainda entrou, bem tentou levar a selecção ao colo, mas não conseguiu, o Éder também entrou, a bola não lhe acertou na canela. Sentado na mesa do costume, o professor Bambara nada dizia – só tinha olhos para a mulher forrada de luto que acariciava o terço.

Vitorino deve ter sido dos poucos que repararam na troca de olhares. Estava zangado com o mundo, tinha cortado relações com a fé. Tanto lhe dava que Portugal ganhasse ou não, já não acreditava em milagres — a mulher tinha tido uma recaída. A notícia da recuperação de Marcolina tinha sido manifestamente exagerada. Foi só fogo de vista. Nem sequer ouviu o que os jogadores disseram nas entrevistas da zona mista, nem era preciso, é a cassete do costume: “ Há que levantar a cabeça, nada está perdido, temos muito campeonato pela frente”. Ainda bem que sábado há mais.