Euro 2016

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A seleção sem bandeira, hino ou vitórias

"Na Gaveta" de hoje conta-nos a história da CEI, uma equipa nascida após a desintegração da União Soviética

Adriano Nobre

Rob Witschge apertado por Dobrovoski num jogo entre a CEI e a Holanda, no Euro-92

Foto Getty

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Há poucos dias, na Copa América, o impensável aconteceu numa organização (supostamente) de alto nível: quando estavam alinhados para ouvirem e cantarem o hino do seu país antes de defrontarem o México, os jogadores do Uruguai ouviram soar nos altifalantes o hino do Chile.

A "falha humana" da organização apanhou de surpresa jogadores, técnicos e adeptos. Não é habitual, mas acontece. A não ser que em campo esteja umas das mais bizarras seleções da história do futebol: a Comunidade de Estados Independentes (CEI) que participou no Euro92 e que não tinha hino nem bandeira. E que tecnicamente nem era um país.

O Europeu que se disputou na Suécia ficou para a história como aquela em que a Dinamarca se sagrou campeã sem sequer ter sido apurada para a fase final: só marcou presença no evento à última hora, em substituição da Jugoslávia, que tinha ganho o seu grupo de apuramento, mas entrara entretanto em guerra civil e vira a Croácia referendar a sua independência.

Mas o mais curioso é que a Jugoslávia – retirada dessa prova na sequência de sanções da ONU acolhidas pela UEFA – não foi a única seleção a apurar-se e a chegar às vésperas do arranque do Euro92 em representação de um país que já não existia. O mesmo aconteceu com a União Soviética, finalista do Euro88 (sim, a “daquele” golo de Van Basten a Dasaev) e que viveu a fase de apuramento para o Europeu seguinte ao ritmo dos efeitos da perestroika e da glasnost.

Apesar de ter conquistado o apuramento nos relvados ainda enquanto União Soviética, o país deixou tecnicamente de existir em finais de 1991 e dissolveu-se nas 15 repúblicas que até então tinham integrado a União. Entre estas, 11 decidiram, no entanto, criar uma Comunidade de Estados Independentes para harmonizar um conjunto de medidas que facilitasse o período de transição de cada república da antiga União até à respetiva independência. E o acordo acabou por ter também extensão temporária nos relvados.

Embora entre a queda da União Soviética e a realização do Euro92 várias destas repúblicas tenham realizados jogos amigáveis já como Estados independentes (como a Ucrânia, a Lituânia ou a Geórgia), ficou decidido entre os subscritores iniciais da nova Comunidade que a representação da União Soviética no Europeu desse ano seria feita sob a sigla da CEI.

E foi assim que chegou ao Euro-92 uma seleção de matriz burocrata, fantasma de um país defunto, representada por jogadores que não tinham hino nem bandeira e que aspiravam a pouco mais do que tentar dar alguma dignidade à despedida de uma seleção marcante na história do futebol. Mas o plano falhou.

Não bastasse já a evidência de a CEI ser um puzzle futebolístico difícil de montar, a equipa viu-se ainda amputada de três peças importantes na estrutura que servira de base ao apuramento da União Soviética para a prova: os lesionados Kulkov, Mostovoi e Galiamin.

As estrelas restantes, Mikhalichenko, Dobrovolski e Kanchelskis, foram então insuficientes para conseguir mais do que dois empates frente a Alemanha (1-1) e Holanda (0-0) e uma humilhante derrota (0-3) frente à Escócia. A União Soviética que se tinha apurado para o Euro92 como primeira classificada num grupo com a Itália, acabaria a fase final da prova travestida de CEI, no último lugar do seu grupo. Sem hino, sem bandeira e sem uma vitória para amostra.