Euro 2016

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A seleção sofre do síndrome Mamede

Nicolau Santos, Diretor-adjunto do Expresso, escreve sobre as coisas que aconteceram no jogo contra a Islândia que não podem acontecer contra a Áustria

Nicolau Santos

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Lembram-se do Fernando Mamede? Grande corredor em provas de meio-fundo e fundo! E em 1984 bateu mesmo o record mundial dos 10 mil metros, que durante um ror de anos permaneceu na sua posse. O Mamede era um grande corredor, mas tinha um problema: quando chegava aos Jogos Olímpicos davam-lhe os nervos, as pernas começavam a pesar-lhe toneladas, o pelotão ia-se embora, ele ficava para último e desistia. A nação portuguesa acordada para ver o Mamede ganhar uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos e o Mamede era certo e seguro, falhava sempre nas grandes ocasiões. Ora a avaliar pelas declarações no final do jogo de Portugal contra a Islândia, que abriu a participação portuguesa no Euro 2016, conclui-se que a seleção nacional sofre do síndrome Mamede: a expectativa era tanta que os nossos homens se deixaram dominar pela ansiedade (Fernando Santos dixit) e fizeram um jogo de… desgraçado.

Ora jogadores que disputam a Liga dos Campeões, que jogam em campeonatos estrangeiros muito competitivos ou nos três maiores clubes portugueses, que ganham milhares ou milhões, deixam-se dominar pela ansiedade por jogarem contra a Islândia, uma ilha perdida no norte da Europa com apenas 320 mil habitantes, logo com um campo de recrutamento de jogadores muitíssimo menor que o nosso e cujo melhor jogador atua no Swansea? Isto faz algum sentido? Ainda se fosse já não digo a Alemanha, mas a Inglaterra vá que não vá. Agora a Islândia?! Querem fazer-nos de parvos?

E não me venham com desculpas parvas e malcriadas como as do Cristiano Ronaldo, segundo o qual os islandeses têm mentalidade de equipa pequena, é só pontapé para a frente e depois estacionam o autocarro à frente da área. Sim, e depois? É proibido? E a equipa portuguesa teve mentalidade de equipa grande? E mesmo tu, caro Ronaldo, o que fizeste em campo? Estás preso por arames, é o que é. E se não for o Quaresma a meter-te a bola direitinha na cabeça não temos golo. E mesmo assim… Já agora: se deixasses o Guerreiro marcar os livros do lado direito talvez não fosse má ideia e fosse mais surpreendente para os adversários. E se tu não deixas, o Fernando Santos devia obrigar-te a deixar, até para surpreender os adversários.

E, de trás para a frente, como é possível a defesa portuguesa em geral, e o Vieirinha em particular, serem batidos daquela forma no golo islandês, um centro mais do que anunciado? Aquilo é de defesa de uma equipa grande e que quer ser campeã? E o Pepe, quando foi derrubado por um islandês e deixou os pézinhos no ar para ver se atingia o rapaz da ilha? É isto mentalidade de jogador de uma equipa grande? E o Danilo, senhores, o Danilo! O homem conseguiu a proeza de não ganhar um lance de cabeça aos islandeses durante o jogo todo. E depois passa o tempo a fazer passes de um ou dois metros para o lado. Para quem precisa de esticar o jogo, o papel não lhe serve de todo.

Quanto ao Moutinho, estamos conversados. O homem emperra, emperra, toquinho para aqui, toquinho para ali, mas não sai nada daqueles pezinhos, o perigo não passa por ali, está completamente fora de forma e devia estar sentado no banco de suplentes há muito. Também é verdade que o João Mário não esteve nas suas noites e o André Gomes também não fez grande coisa. Mas estiveram muito acima do rapaz do Mónaco. Quem muito se esforçou e marcou um belo golo foi o Nani. E esteve quase a fazer um segundo de cabeça. Não há como a concorrência para espicaçar uma pessoa.

Finalmente, o Fernando Santos. Quando um selecionador se põe a dizer coisas que uma pessoa não viu, género “Portugal fez uma exibição razoável, com alguns períodos bons”, começamos logo a duvidar do que se vai passar no próximo jogo. E o próximo jogo é para ganhar e de forma convincente! Para isso, há que mudar bastante a equipa. E qualquer pessoa percebe que o nosso onze tem de ser assim: Rui Patrício; Cédric, Ricardo Carvalho, Pepe (ou Rui Fonte) e Raphael Guerreiro; William Carvalho, Adrien (ou Nani), João Mário e Renato Sanches; Quaresma e Ronaldo. Alguma dúvida? Com estes ganhamos sem espinhas. Força, Portugal!