Euro 2016

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George Best teria gostado

Perante a favorita Ucrânia, McAuley e McGinn foram os heróis improváveis do 2-0 que dá conta dos primeiros golos e da primeira vitória de sempre da Irlanda do Norte num Europeu

Tiago Oliveira

JEFF PACHOUD

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Não foi propriamente uma Serenata à Chuva, mas é difícil não reconhecer a valia do que o parente monárquico e britânico da Irlanda conseguiu perante a intempérie que se abateu durante a tarde em Lyon e obrigou mesmo à interrupção do jogo durante uns minutos. Uma vitória contra todos os que apontaram esta selecção como a mais fraca em prova e um castigo para uma exibição ucraniana que não chegou a encontrar o ritmo e que agora já perdeu o seu lugar na pauta.

Mas vamos por partes. Porque uma seleção que contém um avançado – Josh Magennis – que se estreou nos sub-17 como guarda-redes merece ver a sua história contada (é verdade, pode ir confirmar). A equipa que deu ao mundo o mítico George Best (“Pelé number one, George Best”, nas suas palavras) a Irlanda do Norte nunca antes se tinha apurado para o Europeu de futebol. Fê-lo com uma campanha sólida, que concluiu com primeiro lugar no grupo e festa rija no Windsor Park em Belfast, onde ninguém pedia o título europeu. Só um Verão de animação e convívio em França.

Se ninguém punha em questão a bravura e empenho de um conjunto de jogadores evocativos da velha tradição britânica (futebol compacto, físico e trabalhador), a presença no grande palco europeu teria outras exigências que não se vislumbravam à partida. Nos 23 convocados não há uma única grande estrela e muitos jogadores que militam pelas divisões inferiores do futebol inglês. O jogo de abertura frente à Polónia não deixou grandes indicações e o melhor marcador da equipa, Kyle Lafferty tinha desiludido e deixado críticas ao grupo.

Não era de esperar muito perante os ucranianos que, apesar da derrota, tinham deixado boa impressão perante os alemães. Apesar da qualificação apenas no playoff, jogadores como Konoplyanka e Yarmolenko são dos mais em voga na Europa e uma dupla de extremos que muitos consideram das mais temíveis da competição. Estava aqui o jogo indicado para começar a retoma.

Delírio e dor

Ainda bem que ninguém avisou os norte irlandeses e Michael O’Neill. O selecionador mudou meia equipa, tirou Kyle Lafferty dos titulares e colocou o veterano Aaron Hughes de 36 anos (que está livre após terminar contrato com o Melbourne City da Austrália) a lateral para parar o potente Konoplyanka. As alterações surtiram efeito e o ligeiro ascendente ucraniano sempre pareceu mais consentido do que efectivamente imposto. Numa primeira parte sem destaques nem grandes oportunidades de perigo, nota para o aplauso que varreu o estádio ao minuto 24, para homenagear Darren Rodgers, o adepto da Irlanda do Norte de 24 anos que morreu acidentalmente em Nice, no decorrer da prova.

A segunda parte arrancou num ritmo mais elevado, e os norte-irlandeses confirmaram rapidamente as boas indicações do primeiro tempo com um golo aos 49 minutos. Norwood bateu um livre na direção da pequena área, a que McAuley respondeu de forma pronta com primeiro golo de sempre da equipa num Europeu. Enquanto os adeptos aumentaram o ritmo da festa, a Ucrânia não conseguiu assumir o controlo do jogo. Só após a interrupção do jogo por causa do granizo, aos 59 minutos, os ucranianos começaram a acercar-se mais da baliza de McGovern e beneficiar, finalmente, de situações de perigo.

A 20 minutos de sufoco e aparente cansaço, os norte-irlandeses responderam com o golo aos 90+6 minutos que selou o resultado final. Bola recuperada no último terço, remate sem preparação de McGuinn que Pyatov só conseguiu defender para frente, e golo na recarga. Mais um golo histórico (o mais tardio de sempre em euros) e delírio no campo e fora dele enquanto a desilusão estampada nas caras ucranianas mostrava a dor da eliminação. Já para a equipa de quem nada se esperava, a história continua.