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Não viram o Felisberto?

“O coração também respira” é uma coleção de histórias de ficção de Jorge Araújo, que são crónicas do quotidiano com gente e futebol lá dentro

Jorge Araújo

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Duarte desembarcou no café do Abel com os pulmões a saltitarem no céu da boca. Parecia que tinha visto o demónio, que o mundo estava prestes a acabar. Não dizia coisa com coisa, palavras atabalhoadas, tudo o que se percebia era uma pergunta mil vezes repetida.

- Não viram o Felisberto?

Ninguém respondeu porque ninguém sabia do canalizador. Parece que anda a arrastar a asa a uma miúda de outro bairro, há já alguns dias que não há quem lhe ponha a vista em cima. E como é muito amigo da sua pinga, deve estar a queimar os últimos cartuchos do prolongamento, afinal de contas, Santo António é quando um homem quer.

- Não viram o Felisberto?

O apartamento a meter água por todos os lados, daqui a nada os franceses à porta. Duarte precisava de encontrar o canalizador. Alugar casas a estrangeiros era a sua nova galinha dos ovos de ouro, tinha de fazer boa figura, por nada deste mundo, podia perder o negócio.

- Não viram o Felisberto?

Lá no bairro, sempre que morre um velho, é ver meter obras, alugar é que está a dar. Sobretudo a estrangeiros, os portugueses não têm carteira para pagar por um quarto o que antes se pagava por um palácio. Fogem da cidade, Lisboa a transferir-se para os subúrbios. Um destes dias, à falta de alfacinhas de gema, vai ser preciso contratar figurantes para os turistas. Lisboetas de faz-de-conta.

- Não viram o Felisberto?

Duarte a ver os minutos passar, a vida a andar para trás. Ainda se fossem dinamarqueses, esses sim, levam tudo numa boa, mas os franceses são uns chatos, quando pagam exigem o mundo. O dinheiro do aluguer já tinha caído na conta, não lhe apetecia nada ter de o devolver.

- Não viram o Felisberto?

- Mas o que é que se passa Duarte? – acusou-se o canalizador. Finalmente, dava sinais de vida.

- Qual é que é o problema? Seja o que for, eu resolvo – apregoou o Cristiano Ronaldo das canalizações.

Nem foi preciso fazer um desenho. O seu sorriso transpirava felicidade. Tinha tido sorte no jogo do amor. A miúda do outro bairro fora jogada certeira.