Euro 2016

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O Brexit vai ter de esperar

A Inglaterra ganhou ao País de Gales no último minuto (2-1) de um encontro entre nações que se dizem rivais. Ambas continuam vivas no Euro

Pedro Candeias

Foto ANDY RAIN/Lusa

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Por rivais supõe-se algum equilíbrio de forças, pequeno ou grande, e isso é coisa que não existe no histórico entre ingleses e galeses quando se fala de futebol. São 101 jogos de bola, 61 vitórias para Inglaterra, 14 para o País de Gale.

Ora, isto não é uma rivalidade, é um massacre, entre uma equipa que foi, é e será muito mais forte e poderosa do que a outra; tal como a inglaterra foi, é e será muito mais forte e poderosa do que o País de Gales. Naquele lugar que é a Grã-Bretanha, dividido por fronteiras físicas e culturais mas com uma língua comum, o que não faltam são histórias de conflitos - e as melhores são as histórias clássica do opressor e do oprimido, de vilões e de heróis, de contos e de lendas. Do William Wallace, do Rob Roy, do Michael Collins - de o Phil Bennett. E era por Bennet que este texto devia ter começado. É que este é um Inglaterra - Páís de Gales e o ponto de partida para qualquer Inglaterra-País de Gales tem de de ser o pontapé de saída de um jogo de râguebi. Aí, sim, faz sentido falar-se em rivalidade.

Aconteceu em 1977. Antes do início do jogo, Phil Bennett, capitão dos galeses, teve um discurso inflmado que fiou registado para sempre: “Vejam o que estes energúmenos fizeram ao País de Gales. Roubaram o nosso carvão, a nossa água, o nosso aço. Eles compram as nossas casas e vivem nelas uma noite por ano. O que nos deram? Nada. Fomos explorados, violados, controlados e punidos pelos ingleses - e é contra eles que nós vamos jogar esta tarde”.

O que Bennett fez é mais ou menos o que Gareth Bale tem andado a fazer neste Europeu. Diz ele que os adeptos ingleses têm menos paixão do que os galeses, que não há um jogador da Inglaterra que entre no onze galês, que pouco lhe importa o que Inglaterra e os ingleses acham do País de Gales e dos galeses. Bale, o xamã e o líder espiritual da seleção, elevou este jogo para outro nível, para um encontro de desencontros entre nações que não gostam assim tanto uma da outra.

E fê-lo, sobretudo, porque sabe o que ele próprio vale - e o que valem Ramsey ou Joe Allen ou Kanu. Este País de Gales é uma equipa de guerreiros e brigões com duas ou três estrelas que trabalham como operários e mineiros, sujando-se e esfarrapando-se contra os adversários. É uma questão de honra.

Foi assim que o País de Gales entrou em campo, empurrando a Inglaterra lá para trás, até chegar ao golo por Gareth Bale (dois golos neste Euro; ambos de livre) num lance em que Joe Hart podia e devia ter feito melhor. Mas não fez. Depois, uniram-se e correram e acorreram a todas as jogadas que a Inglaterra fazia, com os seus jogadores, que são melhores e mais conhecidos, mas nem por isso mais assertivos. Quando era preciso finalizar, Sterling, Kane, e afins, davam charutadas quando era só encostar.

Na segunda-parte, com a entrada de Jamie Vardy, que é mais rufia e menos fino e aristocrata do que Kane, e de Sturridge, mais objetivo do que Sterling, a Inglaterra esticou ainda mais o jogo, teve cada vez mais a bola, e fez o empate. Vardy aproveitou um disparate da defesa e naquele estilo desarticulado igualou o estado das coisas. A partir daí, tudo mudou. O opressor carregou sobre o oprimido, que se sentiu encostado, cercado e sem ponto de fuga. As pernas de Bale e de Ramsey afrouxaram e tudo se tornou mais complicado. A resistência quebrou no último minuto quando Sturridge fez o golo que manteve a Inglaterra no Euro; o País de Gales também.

O Brexit vai ter de esperar.

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