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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

É mão? Não é? Duarte Gomes explica

O lance do Inglaterra-País de Gales, que envolve o galês Davies na sua área, deixou dúvidas na redação do Expresso. Pedimos ajuda técnica ao antigo árbitro

Duarte Gomes

Dan Mullan

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Uma das situações de jogo que pode originar muita discussão é a de saber quando é que as mãos/braços devem ou não ser considerados como infração. Quando é que devem ser punidos como "falta".

É porque se há lances claros que não deixam dúvidas para ninguém, há outros que chamamos de "cinzentos". São aqueles que moram na fronteira da dúvida, naquela linha ténue que a interpretação de cada um separa entre a infração e a legalidade.

Mas a boa notícia é que não estão sós nesse dilema. Ele também existe nos próprios árbitros. E não é porque eles não conheçam a lei ou não a saibam aplicar. Conhecem. E sabem.

É porque, nesta matéria, a teoria permite leituras demasiado subjetivas que a prática se encarrega de baralhar, iludir e confundir. Daí que acerto e erro andem muitas vezes de mãos dadas com a questão... das mãos.

Identificado o problema, vamos à solução. Mas, afinal de contas, o que diz a lei?

As leis de jogo dizem que um pontapé-livre direto (ou grande penalidade) deve ser concedido à equipa adversária do jogador que toque deliberadamente a bola com as mãos (exceto se for o guarda-redes, na sua própria área).

Depois, acrescenta ainda um conjunto de esclarecimentos que pretendem facilitar o entendimento, para que se possam tomar sempre as melhores decisões.

Que esclarecimentos são esses?

- Perceber se há movimento da mão/braço do jogador em direção à bola (e não o contrário);
- Analisar se distância entre o adversário e a bola é signficativa ou não (ou seja, se a bola surge de uma forma inesperada, espontânea, imprevista);
- Ter em atenção que a posição em que as mãos/braços se encontram quando tocam na bola, não significa necessariamente que haja infração (porque os braços fazem parte do corpo, inevitavelmente);
- Ter presente que se um jogador tiver um objeto na mão e tocar na bola com ele é punido por jogar deliberadamente com as mãos, tal como o é se arremessá-lo à bola. Exemplos: um defensor atira uma toalha à bola ou desvia-a com uma caneleira que tenha na mão. É punido com livre direto (ou grande penalidade). É como se os referidos objetos fossem extensões das próprias mãos. Percebido?

Mas ainda há mais. Existem também um conjunto de instruções, diretrizes e conclusões de cursos que sugerem outras ferramentas para melhor analisar estes lances.

Por exemplo, é importante perceber se os braços estão na posição natural para a ação/jogada em apreço ou se, pelo contrário, estão a movimentar-se de uma maneira desnecessária, evitável ou anormal para aquilo que a circunstância pedia. Imaginem o seguinte: um jogador salta e usa os braços para criar impulso. Normal. Certo? Se a bola bater na mão/braço nesse movimento, parte-se do princípio que esse contato é involuntário, não deliberado. Não seria de punir.

Outro exemplo. Um jogador está em queda e apoia o braço no chão para não se magoar (algo comum na natureza humana). Caso a bola lhe bata ou toque no braço nesse preciso momento, percebe-se que terá sido involuntário. Mas já não seria se ele depois aproveitasse esse movimento para prender a bola, desviá-la ou jogá-la intencionalmente. Esse sim, seria um gesto para punir.

Imaginem ainda uma outra situação de jogo. Jogador defensor colocado na barreira, com os braços a tapar o peito e a cara. Percebe-se que apenas para proteger um eventual embate da bola, após a execução do pontapé livre.

Se nesse remate a bola bater nos seus braços, que estão junto ao corpo, não pode haver infração. Porque eles estavam lá deliberadamente mas para o proteger e não para jogar a bola de maneira ilegal.

Mas caso o defesa tivesse esticado a mão/braço para fora da sua zona corporal, ganhando com isso volume (ou seja, tornando o seu corpo "maior" para ter mais hipóteses de evitar que a bola passasse), aí sim. Seria punido por jogar deliberadamente com a mão/braço.

A essa "dica" chamamos de volumetria. Dá-se quando, numa jogada, as mãos/braços ocupam um espaço desnecessário e evitável para aquela ação, ganhando assim tamanho de forma abusiva e ilegal. Muitas vezes é instintivo, reflexo. Mas não havendo intenção em fazer falta, houve um movimento deliberado dos braços. E esse é para punir.

Agora um último exercício. Este mais difícil. Deixem por momentos a tv e os seus super-slow motions. Baixem o volume, ignorem os comentários e larguem o conforto da poltrona.

Imaginem-se no relvado. De apito na mão e com a pressão de um mundo inteiro em cima dos ombros.

Imaginem-se lado a lado com jogadores que correm sem parar. Ofegantes. Em esforço, cansados.Imaginem a forma como se movimentam, como falam, como jogam. A velocidade vertiginosa em que tudo acontece. Sintam como esses décimos de segundos parecem uma eternidade.

Imaginem o ruído ensurdecedor das bancadas e os flashes das câmaras fotográficas a dispararem de todo o lado. Imaginem os holofotes a atrapalhar a lucidez e a visão. O discernimento e a concentração.

Imaginem a transpiração a cair pela vossa cara. Incessantemente. E o suor a escorrer. Galopante. Sem parar. Imaginem a fadiga, o cansaço de tanta corrida, de tantas decisões sucessivas, de focar em lances atrás de lances.

E depois um bruá! O público falou. Os jogadores reagiram. Houve ali qualquer coisa. Foi mão? Pareceu mão! Mas foi de repente. Sem pré-aviso. Sem direito a repetição. Sem slow-motions ultra modernos. Sem 3D. Sem nada!

E agora? Tocou? Não tocou? É? Não é? Teve intenção? Não teve? Foi com o braço, com a cara, com o peito? Foi inesperada? Foi mão à bola ou bola na mão? Foi à queima-roupa? Não foi? Teve tempo para tirar o braço? Não teve?

Que aflição. Não se sentem sozinhos, por momentos?

Tic, tac, tic, tac. Ou sim. Ou não. Estão sessenta mil a assobiar no estádio e três milhões à espera, em casa. Tic, tac, tic, tac. E agora?

A verdade é que, por muito que se tente, há limites que o homem ainda não sabe ultrapassar. Não consegue. Não pode. Pode tentar, pode até superar-se em muita coisa, mas há situações que esbarram na sua limitação.

Ficaram a conhecer a letra da lei e algumas das dicas que os árbitros têm em consideração para decidir melhor. Espero que sejam suficientes para saberem um pouco sobre este aspeto do jogo e, sobretudo, para perceberem a dificuldade que têm em tomar, da posição em que se encontram, decisões difíceis e milimétricas, em milésimos de segundos."

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