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Kizomba ao pé coxinho

“O coração também respira” é uma coleção de histórias de ficção de Jorge Araújo, que são crónicas do quotidiano com gente e futebol lá dentro

Jorge Araújo

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André gosta de se olhar ao espelho. É jeito de se procurar, de se encontrar, quanto mais busca mais se dispersa. É sobretudo jeito de ganhar alento para enfrentar o novo dia. A vida não está fácil, nunca foi fácil, sobretudo para quem, como ele, não foi particularmente abençoado pela natureza.

Mas ele não se queixa, nunca ninguém lhe ouviu um lamento. Aprendeu cedo a lei da selva, não é homem de baixar os braços. E esses braços são os seus marinheiros porque ele é o coxo de serviço. É por isso que, muitas vezes, não consegue acompanhar o andamento, é por isso que, durante muito tempo, foi olhado de lado. Apontado com o dedo.

Mesmo assim, André fez sempre questão de caminhar pelo próprio pé. Nunca ficou a dever nada a ninguém. E se alguém vier ao bairro à procura de um coitadinho, é melhor bater a outra porta, ir pregar para uma outra freguesia. Pensando bem, a sua única deficiência nem é a perna adormecida que herdou à nascença, foi nunca ter conseguido acertar com as letras.

A escola, para alguém com uma deficiência, é o berço de todos os pesadelos. As crianças não têm filtros, a crueldade na ponta da língua. André sempre foi o patinho feio do recreio, o gozo dos colegas. Talvez por isso não conseguiu concentrar-se nos livros, virou costas à sabedoria. Agora não é bom em nada mas sabe um pouco de tudo. Mas nunca chegará a patrão, será sempre eterno ajudante.

Ele não se queixa do destino. Vai à luta com as armas que Deus lhe deu. Trabalho não lhe falta, pode é ser mal pago, mas isso é outra história. Dá uma mãozinha no café do Abel, ajuda o Almeida do talho a preparar as carnes, despeja o lixo de velhinhas acantonadas no último andar dos prédios sem elevador. Faz o que for preciso, nunca diz que não a um biscate.

Mas o seu trabalho de sonho é receber estrangeiros nos apartamentos do Duarte. Tem lábia – pelo menos é o que toda a gente diz – queda para línguas - quando lhe falam em estrangeiro, responde em português, devagar, soletra as palavras com se fossem algodão doce. Ainda por cima, tirando os franceses, os turistas dão boas gorjetas, trabalha meia dúzia de horas, o resto do dia de papo para o ar.

De papo para o ar é força de expressão. As suas horas vagas são património da Academia Recreativa e Cultural do bairro. E na colectividade sexta-feira é dia sagrado. Dia de bailarico. É sempre o primeiro a chegar, instala-se no seu canto, bate os pés contra o soalho, abana os ombros sem parar. Mas nunca dança.

Da única vez que ganhou coragem e lançou a senha mágica:

- A menina dança?

Foi fulminado por um olhar de desprezo:

- Não sei dançar ao pé coxinho.

André ficou destroçado, fingiu olhar para o lado, mas a vergonha tem chumbo, pesa, não encontrou um buraco onde se enfiar. Ficou vacinado para a vida. Agora prefere ficar no seu canto, não tem moral para mais uma humilhação. Mas conhece o reportório de cor, a tarde começa sempre com um bolero, depois o compasso da valsa, o tango a fechar a matinée dançante.

Nos últimos tempos André deixou-se enfeitiçar pelo Kizomba. Parece que é uma moda que veio de Angola, mas isso ele não tem bem a certeza, não chegou a falar sobre o assunto com o amigo Kambanga, um antigo soldado angolano que não bate bem da cabeça, e vive na soleira da tasca do Augusto. Despojos de guerra.

- A menina dança? – Esta manhã André começou a ensaiar o discurso em frente ao espelho da casa de banho.

A nova menina dos seus olhos é uma mulata com cara de pecado, dança tão bem que parece que voa. André andou a recolher informações sobre o objecto do seu desejo, dizem-lhe que é uma mulher-a-dias cabo-verdiana, mais uma escrava de sol a sol, que tem uma ninhada de filhos para sustentar. Porém, o retrato não o intimidou - apesar das agruras da vida não perdeu o corpo de sereia.

André não consegue deixar de pensar nela. Pensa nela dia e noite, noite e dia, mais de noite do que de dia, é de noite que esquece o dia, tem menos ais para consolar. Dorme e acorda a pensar nela. Hoje ele vai encher-se de coragem e, com palavras doces, pedir-lhe que o acompanhe numa kizomba.

- A menina dança?

Hoje é o dia, também porque Portugal não joga, André não vai ter de ajudar o Abel a aviar as encomendas no café. Para além disso não lhe apetece andar a discutir se vai jogar o Vieirinha ou o Cédric, o Danilo ou o William Carvalho, o Renato Sanches ou o Moutinho. Não quer saber se o Quaresma e o Dani entram os dois logo de início. Isso, que lhe desculpem os treinadores de bancada, está nas mãos do Fernando Santos. O que realmente deseja é que Portugal ganhe o jogo de amanhã, pode ser no último minuto, com um golo marcado com a mão, até pode ser com ele a fazer de Ronaldo ao pé coxinho.

- A menina dança? – André continua a sua investida em frente ao espelho da casa de banho.

Para enganar a ansiedade, ensaia os mais arrojados passos de dança. Fala sozinho com palavras vestidas de seda. Quer lubrificar a garganta, exercitar o músculo do paleio. Volta, não volta, sacode a caspa do casaco, ajeita a dentadura postiça com um ligeiro movimento do maxilar, acaricia a rosa solitária que lhe enfeita a lapela. Na ponta dos lábios um cigarro adormece de esquecimento.

- É hoje – carimba, por fim, o seu convencimento