Euro 2016

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Antes do tiki-taka, o soco-soco

"Na Gaveta" de hoje fala do contraste de estilos da Espanha de outrora e da Espanha de agora

Adriano Nobre

David Ramos

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Parece que temos Espanha. Vitória por 3-0 sobre a Turquia, Morata a afirmar-se com dois golos, Nolito a provar que é mais do que opção (golo e assistência), equipa em bom plano, apuramento para os oitavos de final já no bolso. Não sendo ainda “a” Espanha que vimos noutros europeus – nomeadamente nos dois últimos, que venceu – esta versão foi suficiente para garantir a exibição mais convincente, até ao momento, de um favorito à vitória no Euro2016. E depois de oito dias consecutivos de jogos, isso não é pouco.

Mas neste espaço a ideia é olhar para trás, de preferência mais para trás do que a dezena e meia de horas que entretanto passou desde este primeiro assomo de candidato. E se olharmos bem mais para trás, por exemplo para o Europeu de 1996, percebemos que hoje se cumprem 20 anos de um momento um pouco menos bonito para a seleção espanhola nestas andanças.

A 18 de junho de 1996 – quando o tiki-taka era uma inexistência e a essência do futebol espanhol assentava no conceito de “fúria” –, a Espanha carimbou o passaporte para os quartos-de-final do Euro96, com uma vitória por 2-1 sobre a Roménia na última jornada da fase de grupos.

Vitória, banho tomado, tudo corria de forma tranquila no interior do estádio do Leeds United. Até que à chegada à zona mista, à saída dos balneários, o selecionador espanhol, Javier Clemente, decide exteriorizar a tensão acumulada pela pressão a que estava a ser sujeito por alguns media desde que assumira o cargo, em 1992.

Ao ver o autor do golo da vitória espanhola sobre a Roménia, Guillermo Amor, a falar com um jornalista da rádio Cadena SER, Clemente interpelou de forma propositadamente audível o seu jogador. “Estás a falar com esses filhos da puta?”.

Não satisfeito, Clemente, que se dizia perseguido pelos meios do grupo Prisa, decide dar uma chapada no microfone do jornalista, ao que este retorquiu com argumentos em forma de punhos. Empurrões, socos, puxa daqui, agarra para ali, jornalistas e membros da comitiva espanhola ao barulho.

Não houve demissões, mas nos dias seguintes o assunto dominou naturalmente boa parte dos media espanhóis, com a grande maioria dos analistas e comentadores a censurarem Clemente pelo seu comportamento. Antes muitos deles já o tinham censurado pelas suas opções táticas, pelas suas convocatórias e pela sua dificuldade em lidar com a crítica. Fatores que já tinham levado, por exemplo, Pep Guardiola a incompatibilizar-se com o treinador e a falhar a convocatória para esse Europeu.

A seleção espanhola acabaria por cair nos quartos-de-final da prova, frente à anfitriã Inglaterra, no desempate por penalties, após um sonolento 0-0. Foi o fim de uma participação que ficou menos para a história do que o temperamento de Clemente. Que ainda se faria sentir no leme da seleção espanhola até ao Mundial de 1998.