Euro 2016

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Até que enfim, Bélgica

As estrelas belgas deram finalmente um ar da sua graça com uma convincente vitória por 3-0 perante uma Irlanda sem capacidade de resposta. Lukaku foi a estrela, com um bis

Tiago Oliveira

EMMANUEL DUNAND

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Há tantos milhões de euros na seleção belga que um pequeno país aceitaria de bom grado ter um PIB que juntasse o valor de uma geração que está espalhada pelos melhores clubes da Europa. Hazard, De Bruyne, Lukaku, Carrasco, Witsel (a quem bastou uma época no Benfica para deixar saudades) ou Courtois são nomes de fazer água na boca a qualquer um.

Individualidades de grande qualidade. E aí parecia residir uma equação sem solução satisfatória, até ver. Como criar um conjunto? Hoje, a resposta apareceu de forma enfática. 3-0 em Bordéus, bom futebol e tréguas assumidas até ao decisivo terceiro jogo. Porque, como o desporto rei faz questão de recordar sempre que pode, os bestiais de hoje são as bestas de amanhã (e vice-versa).

Após o primeiro jogo, nada o fazia prever. À derrota por 2-0 e a uma exibição pobre com a Itália seguiram-se dias de tensão e rumores de instabilidade nos bastidores. No final da partida Courtois criticou “a falta de organização” da equipa, a que se terá seguido um confronto (quase físico) entre o guarda-redes do Chelsea e o selecionador Marc Wilmots (nome a que já vamos voltar, esteja atento). Apesar da qualificação para a fase final em primeiro lugar, a qualidade de jogo deixou a desejar e na imprensa as críticas estiveram sempre presentes. A entrada em campo fez-se ao som da instabilidade.

Do outro lado, estava uma equipa esperançada e com os adeptos mais animados em prova. Se uns têm ganho fama por táticas de guerrilha urbana, os irlandeses têm levado a festa ao centro das cidades francesas com bom ambiente, convívio com adeptos adversários e covers (bem regadas) de variados cânticos. O empate a 1-1 no primeiro jogo com a Suécia mantinha tudo em aberto e a boa exibição aliada a resultados chamativos na qualificação (como uma vitória sobre a campeão mundial em título, a Alemanha) enchia o campo irlandês de confiança num bom resultado.

A história repete-se

Quanto ao jogo jogado, a primeira parte fez jus ao que tem sido hábito neste europeu e não foi marcada pela intensidade. Após um início mais forte da Bélgica (que promoveu três alterações no onze), a Irlanda equilibrou e conseguiu levar mais jogo à área adversária e enervar as já de si pressionadas hostes belgas. Sempre perigosos nas bolas paradas (a equipa que mais golos marcou assim no apuramento), pareciam ter um jogo propício para aproveitar uma falha de marcação.

Mas os segundos 45 minutos apresentaram uma Bélgica completamente diferente, com os argumentos técnicos superiores das suas estrelas a entrarem em evidência. Logo aos 49 minutos, Kevin de Bruyne abriu o livro fez um passe com conta peso e medida para Lukaku que apontou o primeiro golo com um remate colocado à entrada da área. Claro que a história podia ter sido diferente se um lance semelhante ao que valeu a expulsão de Bruno Alves frente à Inglaterra tivesse sido assinalado dentro a grande área belga, apenas minutos antes. Aqui, não há futurologia que safe.

A partir daí, a Bélgica controlou o jogo a seu bel prazer e os jogadores começaram a dar uso a toda a sua gama de recursos. Aos 61 minutos, uma das caras novas da equipa, Meunier, cruzou de forma milimétrica para a cabeça de Witsel. Tudo estava encaminhado e os irlandeses não davam mostras de serem capazes de responder.

O triunfo ficou selado à passagem do minuto com nova finalização de Lukaku a concluir uma grande arrancada de Eden Hazard. 3-0 e uma vitória pacificadora, essencial para as aspirações deste grupo de estrelas que ainda tem um jogo decisivo frente à Suécia para mostrar que pode ser mesmo um conjunto. Quanto à Irlanda, tem que ganhar à Itália para ainda poder sonhar com a passagem. Para terminar, uma curiosidade: sabe quem tinha sido o último jogador a bisar pela Bélgica em grandes competições? Marc Wilmots, o atual selecionador (eu disse-lhe que ainda íamos falar dele).