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E a Caparica aqui tão perto

“O coração também respira” é uma coleção de histórias de ficção de Jorge Araújo, que são crónicas do quotidiano com gente e futebol lá dentro.

Jorge Araújo

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Um dia é um dia. Nenhum dia é igual a outro, têm todos vida própria, uma história para contar. Mas um dia que transpira passado e nenhuma promessa de caminho não risca no calendário da vida.

Desde terça-feira, que os dias de Vitorino eram assim. Acordava por acordar, dormia porque sim. A manhã daquele dia marcou-o profundamente, logo aquele que começou com um milagre – a mulher de pé, livre da cama e do colete de dores.

Naquele dia, Vitorino nem queria acreditar quando ouviu a voz da mulher vinda da casa de banho. Ao princípio, até pensou ser um ladrão. Mas depois procurou-a com os braços na cama e não a encontrou. Ainda hoje, não consegue perceber o que aconteceu, como é que Marcolina conseguiu libertar-se do corpo que a escraviza.

Quando chegou à casa de banho, as lágrimas vieram-lhe aos olhos. A mulher que há anos vivia amarrada a uma cama, estava em frente ao espelho. Bonita de novo, como se a doença não tivesse passado por ela, deixado marca. Cheirava a alfazema.

- Olha para mim, querido – disse ela, alegria à flor da pele.

E ele olhou. Deixou o olhar demorar-se e não se cansou. Estão casados há muitos anos, mas ele nunca se cansou de olhar para ela. Marcolina continuava linda, apesar de nos últimos anos viver amarrada a uma cama, à conta de um par de hérnias mal curado. Vitorino apertou a mulher contra o peito, beijou-a como se fosse a primeira vez. Em silêncio, muitas vezes, as palavras só servem para atrapalhar os sentimentos.

- Vou à rua e já volto - disse passado um tanto.
- Não me digas que vais ao café do Abel – protestou a mulher.
- Não. Tenho uma ideia!

Vitorino voou até à Academia Recreativa e Cultural com passos maiores do que as pernas. Caminhou tão depressa que, quando lá chegou, os pulmões quase saltavam boca fora. Para onde é a excursão do próximo sábado?, perguntou, ainda na soleira da porta. É para a Caparica, responderam. Já não era sem tempo, pensou. Anos e anos em Lisboa e nunca atravessara a ponte.

Pediu dois bilhetes. Os olhos fechados com força para saborear o momento. O paraíso à sua frente. Ele e ela a comer um peixinho, um copito de vinho e a refeição selada com arroz doce e cafezinho. Os dois de mão dada, a olhar para o mar. Ela vai adorar, pensou. Lágrimas de felicidade bailavam-lhe no olhar.

Quando regressou a casa, mal meteu a chave na fechadura, chamou-a. Mas ela não respondeu. Voltou a gritar. Nada. Foi à casa de banho, mas ela já lá não estava. O quarto do casal foi o último apeadeiro. Marcolina estava de novo amarrada à cama, gemia, uivava de dor. O milagre tinha sido sol de pouca dura.

A recaída da mulher deitou-o abaixo. Caiu mais baixo do que o fundo do fundo de um poço. O sonho de caminhar de mãos dadas pela estrada da vida esfumou-se. Às vezes, a vida é ingrata, nem tem direito a purgatório – é céu e inferno no mesmo dia.

Hoje, tal como nos últimos dias, Vitorino chegou ao café do Abel com o olhar perdido no vazio. Não disse bom dia nem boa tarde, não esboçou um aperto de mão. Pediu a sua bica, como de costume, nem sequer reagiu à pergunta do amigo:

- Está tudo bem? – Abel perguntou, só por perguntar, estava na cara que não estava tudo bem.

Ele não respondeu. Arrastou o passo até à sua mesa, a que fica bem lá no fundo, poiso dos desportivos e do Correio da Manhã. Não espreitou as manchetes, não quis saber das últimas do social. Manifestamente não estava com moral para enfrentar o dia, quanto mais para as notícias.

- Está tudo bem? – o amigo a insistir.

Vitorino encolheu os ombros, continuou trancado no seu mundo. Os olhos a polirem o tampo da mesa, as mãos enfiadas bem no fundo dos bolsos. E o amigo parvo de espanto, há anos que o conhecia e nunca o tinha visto assim, algo de muito grave devia estar a acontecer.

- Está tudo bem?

Vitorino não respondeu, continuava com a mão enfiada no fundo do bolso, a acariciar os bilhetes para a excursão. A decepção tinha sido tão grande que ele nem sequer os devolvera. Eram a única prova do dia em que o céu acabou em inferno. Mas o que ele não sabia era que, às vezes, um pedaço de papel pesa mais do que uma floresta de eucaliptos.

Abel não insistiu mais. Ainda bem que Portugal joga hoje, pensou, o pessoal vai puxar pela selecção, por Vitorino. Quem sabe se, no final do dia, ganhamos à Áustria, e vamos festejar com alegria. Só assim o dia será dia, dia para deixar marca no calendário da vida.