Euro 2016

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E daquele golo do Paulinho Santos, lembra-se?

O último Portugal-Áustria deu empate mas soube a vitória. O próximo definirá posições de um grupo que está de pernas para o ar. Ambas as seleções vêm da maus resultados e não querem repetir.

Expresso

11 de outubro de 1995. Paulinho Santos vai por ali fora e marca um golo que dá um empate saboroso a Portugal

Mike Hewitt

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Para a geração de portugueses que viu ou se lembra de Portugal pela primeira vez numa grande competição no Inglaterra-96 - tinha acabado de nascer aquando o França-84 e era muito novo para ter qualquer memória do México-86 - a seleção austríaca é daquelas que marcou, ficou gravada na memória. Daquelas memórias que nos fazem arrepiar. Já vai perceber porquê.

Os falhanços que foram as campanhas de qualificação para os mundiais de 90 e 94 e para o europeu de 92, faziam crer à miudagem da altura que ver a seleção numa fase final de um certame dessa categoria era quase uma utopia. Ver os jogadores nacionais estampados numa caderneta qualquer ao lado dos outros craques da altura era algo difícil de imaginar.

Até que um dia, uma certa geração de jogadores - que mais tarde veio ser chamada de ouro - começou uma fase de qualificação: Ganhou o primeiro jogo, e o segundo e também o terceiro. E de repente o sonho de estar entre os melhores no verão que se aproximava começou a ter uma forma, ainda não muito bem desenhada, mas já tinha forma. O pessoal começou a acreditar, e a qualidade daqueles jovens jogadores alimentava a nossa crença. Nem mesmo dois percalços com as Irlandas, a República e a do Norte, nos afastaram do sonho.

Até que chegou o dia da viagem a Viena para jogar com a seleção da Áustria no estádio Ernst-Happel. Um empate colocava a seleção das quinas com um pé em Inglaterra para jogar o Euro. O jogo começa, a Áustria marca, vamos para o intervalo a perder 1-0. O sentimento de frustração começa a tomar conta da malta, continua a perseguir-nos. É a nossa sina, é o nosso fado, já se pensava.

Ainda mal tinha começado a segunda parte quando um herói improvável, Paulinho Santos, pega na bola junto à linha lateral e com um par de fintas tira outros tantos defesas austríacos do caminho, e com um remate cruzado e rasteiro faz a bola passar entre o poste e o gurda-redes. Que golaço. O empate durou até ao fim, e o sonho tinha agora um nome - Inglaterra-96.

Passaram-se mais de 20 anos e desde esse dia muitas coisas mudaram, a seleção é agora uma habitual nestas andanças e até já fala em levar o caneco para casa.

Muitas coisas mudaram, mas outras não. Portugal vai defrontar a Áustria e mais uma vez tem o seu futuro agarrado ao que conseguir tirar deste jogo.

Ambas as seleções vêm de maus resultados, Portugal empatou e a Áustria perdeu. Nós contra islandeses eles com húngaros.
As promessas de fazer melhor que no primeiro jogo ouvem-se no dois lados.

Os austríacos têm alguns problemas: Dragovic, titular na defesa e totalista na brilhante fase de qualificação, viu um duplo amarelo, não joga contra nós. Outro que fez os dez jogos de qualificação e está lesionado e parece que também não vai jogar é Januzovic, médio organizador de jogo do Werder Bremen. Boas notícias, portanto.

Para nos preocupar há Alaba. Ele que no Bayern de Guardiola até já jogou a defesa-central, na seleção não tem posição fixa - parece. Contra a Hungria vimos-o a fazer de médio centro, de extremo e muitas vezes ia até à área tentar a sua sorte. Tem um pé esquerdo fantástico, cruza muito bem e remata ainda melhor.

A outra estrela da equipa é Arnautovic, jogador de Premier League. A sua forma rebelde de jogar espelha a sua personalidade. Há quem o compare a Ibrahimovic: alto, forte de corpo e de remate e se lhe pisarem os calos ele vira-se. Normalmente descai para uma das alas - os nossos laterais que se cuidem - mas tem liberdade para andar por onde lhe der mais jeito.

O ponta-lança desta equipa é geralmente Mark Janko. Fortíssimo no jogo aéreo e um perigo nas bolas paradas. Mas há quem diga que fica por aqui, dá-se muito às marcações e pode ser facilmente anulado. Ele que passou pelo FC Porto mas sem deixar muitas saudades.

No resto, destacamos ainda o capitão Fuchs que chega a esta competição com o título de campeão inglês, o que não é para qualquer um e Klein, o outro lateral que joga no Estugarda.

Ora, estas são as armas ao dispor do selecionador austríaco, Marcel Koller, que afirmou não ter visto o primeiro jogo de Portugal. Enfim. Vamos ao que interessa.

O selecionador nacional já avisou que, devido ao pouco tempo de descanso entre o último jogo e este que se apróxima, vai fazer alterações. Diz o mister que é para refrescar e não para castigar.

Fernando Santos vai baralhar e voltar a dar, e só saberemos que cartas vão a jogo quando o apito soar. Na defesa há uma dúvida: Vieirinha ou Cédric. O primeiro viu-se e desejou-se contra os altos islandeses, teve mal no golo sofrido e os cruzamentos não lhe sairam nada bem.

Danilo andou em consultas (médicas) depois do jogo, problemas nas costas. Parece que recuperou e talvez jogue. A possiblidade de jogar com Nani numa das alas e tirar João Mário ou André Gomes tem sido discutida. O meio-campo da seleção está a gritar por explosão e velocidade, que sentido faz ter Renato no banco? O miúdo entrou bem contra a Islândia e sejamos sinceros, João Moutinho está muito em baixo, o seu cartão de visita sempre foi jogar em "altas rotações" e neste momento não está a conseguir. Renato Sanches recupera bolas e é muito rápido a "queimar" metros com a bola nos pés. Vamos lá deixá-lo jogar desta vez.

Na frente há CR7. Os nossos adversários têm uma estratégia: fazer a cabeça em água ao rapaz. O que eles não sabem é que ele normalmente tem nessas provocações o seu alimento para se levantar e fazer ainda melhor. Tudo se cala à primeira bola que lhe aparecer nos pés, ou na cabeça. Ok, falhou uma, de cabeça. Mas já não falha mais.

A fazer companhia ao capitão, lá na frente, deverá estar Quaresma que jogou só 15 minutos no primeiro jogo e está agora completamente recuperado da pequena lesão que o incomodava.

Sendo importante, o jogo contra a Áustria está longe de ser de vida ou de morte. A derrota é que não interessa mesmo nada. Neste formato onde existe a possibilidade do terceiro classificado se apurar, ficará tudo para decidir na última ronda.