Euro 2016

Perfil

Estamos na final, a Áustria também

Tanto se falou no objetivo de chegar à final que Portugal lá arranjou uma final logo no segundo jogo. Esta noite, contra a Áustria (20h, RTP1), convém ganhar para não ter de pegar na máquina de calcular

Renato Sanches jogou 20 minutos contra a Islândia. E hoje?

REUTERS

Partilhar

A história não é da carochinha, mas é bem simples e conta-se assim: depois de uma qualificação que correu às mil maravilhas, era certinho que a vitória no primeiro jogo estava no papo, porque os outros eram bem mais fraquinhos do que nós. Nós, Portugal? Não, não é bem isso. “Ninguém na Áustria antecipava uma derrota contra a Hungria [0-2], foi uma grande desilusão”, conta Toni Oberndorfer, jornalista austríaco da televisão estatal ORF, em França a cobrir o Europeu. “Foi inesperado para todo o país, que começava a galvanizar-se bastante com o futebol.”

É que a Áustria chegou ao Euro-2016 em grande: em dez jogos de qualificação, obteve nove vitórias e um empate (faz lembrar alguém?), deixando para trás a Rússia e a Suécia. O feito torna-se ainda mais surpreendente quando se olha para o contexto da seleção: este foi, na prática, o primeiro apuramento dos austríacos, já que a única vez em que tinham estado num Europeu, em 2008, foi na condição de coanfitriões (estavam automaticamente apurados). E, mesmo assim, a participação não foi propriamente memorável: perderam com a Alemanha e com a Croácia e empataram com a Polónia. E acabou-se o único Euro em que tinham participado.

“As pessoas pensam que somos um povo tranquilo que não se interessa muito por futebol, mas já não é bem assim. Esta equipa austríaca fez com que houvesse um grande boom de futebol no país”, explica Toni Oberndorfer, que diz que há muito não havia uma geração assim. “Portugal antes desta equipa teve muitos jogadores para recordar — Luís Figo, João Vieira Pinto, Rui Costa —, mas a Áustria não tinha ninguém desde as décadas de 70/80. Esta é a melhor Áustria dos últimos 40 anos”, conclui o jornalista.

Num país com 8,5 milhões de habitantes e larga tradição em desportos de inverno, compreende-se que o futebol tenha perdido destaque. Mas a preponderância recente de austríacos noutros campeonatos, assim como a evolução na formação — a Áustria foi quarta classificada no Mundial sub-20 de 2007 e muitos desses jogadores fazem parte agora da equipa principal —, ajudou a seleção a crescer. “Eles competem na Bundesliga e em Inglaterra, são muito importantes para as equipas, como Alaba no Bayern, Fuchs no Leicester e Arnautovic no Stoke”, explica Oberndorfer.

O analista de futebol Rui Malheiro concorda com o diagnóstico. “A Bundesliga alemã acolhe 15 dos 23 convocados. É uma geração que se tem imposto fora de portas, e o selecionador Marcel Koller soube colher os frutos do amadurecimento, baseando-se numa estrutura 4-2-3-1, com algum conservadorismo, procurando as transições ofensivas rápidas”, explica.

Ou seja, no plano conceptual, a Áustria não difere assim tanto da Islândia, ainda que “trate melhor a bola”, diz Malheiro. “Têm competência para assumir o jogo, baixando Baumgartlinger e projetando os laterais no ataque, sempre com Alaba como pensador. Mas são muito perigosos no contragolpe, aproveitando a criatividade e qualidade de passe de Alaba (sempre ele) e o ataque rápido à profundidade de Harnik e Arnautovic.”

Se notou especial incidência no nome de Alaba, saiba que não é coincidência. O lateral/central de 24 anos do Bayern de Munique, que é médio centro na seleção, é o que se pode definir — simplificando — como o Ronaldo austríaco. “É uma comparação fiável em termos da importância que tem”, diz Oberndorfer, “porque não há dúvida que ele é a nossa estrela, apesar de não se ter saído muito bem contra a Hungria”, acrescenta, lamentando as baixas do médio Junuzovic, por lesão, e do central Dragovic, por castigo.

Roda o banco e toca o mesmo

A última vez que Portugal defrontou a Áustria num jogo oficial foi em 1995, na qualificação para o Euro-1996, então com um médio que hoje é treinador precisamente em Paris: Carlos Secretário. “Então não me lembro?”, recorda imediatamente o ex-internacional. “Sei que empatámos 1-1, com um golo do Paulinho Santos. Fizemos uma boa exibição, e nesse jogo até joguei como interior, quando normalmente jogava como ala. Foi um jogo difícil, mas foi um bom resultado fora de casa”, conta o atual treinador dos franceses (mas mui portugueses) Lusitanos de Saint-Maur, fazendo logo uma transposição para o presente. “Acho que não podemos pensar que a Áustria, por não ser habituée nestas fases finais, é uma equipa fácil.”

Tal como a Áustria, Portugal esperava vencer o jogo de estreia no Europeu, e não se pode dizer que não tenha feito por isso, olhando para as estatísticas da UEFA: no final da primeira jornada, era a seleção com mais remates (27), com maior precisão nos passes (92%, à frente dos 91% da Espanha e da Alemanha) e só ficava atrás da Espanha na posse de bola (67% para 66%). O problema é que, no futebol, os números valem pouco ou nada, como se viu pela seleção francesa, já qualificada para os oitavos de final com golos mesmo no final de ambos os jogos — e jogando pior do que Portugal. “A França foi feliz e Portugal não. Esperemos que os nossos jogadores sejam mais assertivos na finalização”, diz Secretário, desvalorizando os holofotes que costumam apontar para Cristiano Ronaldo. “Todos esperamos muito dele, mas não pode ser só o Ronaldo a resolver os problemas de Portugal. A seleção tem de jogar como uma verdadeira equipa”, conclui.

Para procurar uma maior produção coletiva, é certo que Fernando Santos irá mexer no onze, especialmente no meio-campo. Danilo, que foi dos jogadores menos produtivos frente à Islândia e esteve esta semana com uma lombalgia, deve ser trocado por William. Depois, resta saber se o selecionador também tira Moutinho — ou algum dos outros médios — para colocar o que foi o primeiro a saltar do banco: Renato Sanches. “Portugal foi incapaz de impor o jogo interior e atacar as entrelinhas, esteve sempre muito agarrado a um jogo exterior muito previsível”, analisa Malheiro. “Sou contra alterações profundas, mas acho que Moutinho deve sair do onze. Talvez por Renato, mas creio que esta estrutura até é mais para Renato na ala do que para a posição ‘oito’. Assim sendo, colocaria aí Adrien e mais atrás William”, especifica. E Quaresma continua no banco? E os laterais mudam? É difícil prever, e Fernando Santos também não se descoseu perante os jornalistas portugueses e austríacos. Como diz Toni Oberndorfer, só uma coisa é certa. “É difícil dizer quem vai ganhar, porque estão ambos sob pressão depois dos resultados da primeira jornada. Só sei que é uma final na fase de grupos.”

  • “Não pode ser só o Ronaldo a resolver os problemas”

    A seleção portuguesa ainda não festejou em França, mas Carlos Secretário não se pode queixar dos jogos que teve esta época no país: subiu o Lusitanos de Saint-Maur, equipa dos arredores de Paris, ao quarto escalão francês. E esteve, como jogador, no último Áustria-Portugal, em 1995