Euro 2016

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“Não pode ser só o Ronaldo a resolver os problemas”

A seleção portuguesa ainda não festejou em França, mas Carlos Secretário não se pode queixar dos jogos que teve esta época no país: subiu o Lusitanos de Saint-Maur, equipa dos arredores de Paris, ao quarto escalão francês. E esteve, como jogador, no último Áustria-Portugal, em 1995

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Agora é um herói em França.
Bem, pelo menos no Lusitanos... [risos] As coisas de facto correram bem. O clube queria apostar na subida e conseguimos esse objetivo. No início senti algumas dificuldades, porque não conhecia a equipa e não conhecia a liga, ainda por cima em França, mas com o tempo fui conhecendo melhor, e eles também foram percebendo melhor as minhas ideias. Pensei que fosse um futebol amador, mas não, fiquei muito contente com o que vi, com condições de trabalho muito boas, e é uma divisão em que se pratica um futebol muito bom. Basta ver que o Vitória de Guimarães veio buscar um jogador à equipa B do Lille, que fazia parte da nossa série no campeonato.

Gosta de viver em França?
Sim, sinto-me bem em Créteil, sou bem tratado. Tenho montes de portugueses à volta e não me falta nada português. Temos vários jogadores portugueses na equipa, por isso fala-se muito português no balneário, até porque também temos jogadores de Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Brasil. Isso ajudou muito o meu processo de adaptação.

Fala bem francês?
Já me consigo desenrascar com os jogadores, quando preciso de dizer alguma coisa. Perceber já percebo tudo, agora falar às vezes ainda tenho uma certa dificuldade. Há muitos jogadores que falam português, a direção também é portuguesa... por isso não há uma necessidade tão grande de saber muito francês.

Então, quando acaba os jogos, vai para um restaurante português comer comida portuguesa e beber cerveja portuguesa?
De vez em quando. [risos] Há vários restaurantes portugueses disponíveis, com cerveja portuguesa. [risos] Também há hipermercados portugueses, com tudo o que é português, por isso nesse aspeto sinto-me em casa.

O jogador francês é parecido com o jogador português?
Sim, sim, mas tem de tudo, uns melhores tecnicamente e outros não tão evoluídos. Se calhar, na minha visão, têm de trabalhar um pouco mais o aspeto tático, porque acho que faltava um pouco na nossa equipa esse lado.

Tem visto o Euro?
Sim, vi alguns jogos. Com mais atenção vi o jogo de Portugal e depois mais dois ou três. Mas nesta primeira fase não se têm visto grandes jogos. Vou esperar pelos oitavos de final para ver melhor. Tenho andado em almoços e jantaradas com os amigos e não tenho muito tempo, porque começamos a época no início de julho.

O que lhe pareceu o jogo de Portugal?
Acho que Portugal teve momentos bons. É lógico que todos esperávamos que Portugal ganhasse, mas também temos de analisar o adversário, e a Islândia, apesar de ser a primeira vez que está no Europeu, deixou pelo caminho a Holanda, que está sempre nas fases finais e costuma ser uma equipa candidata ao título europeu. Portugal alternou o bom com o menos bom. Mas um empate não é um mau resultado, não é o ideal, mas não é mau.

Olhando para uma posição que conhece bem, achou que os laterais tiveram alguns problemas, levando com muitas bolas nas costas?
É normal, porque a Islândia jogou com um bloco baixo e a querer sair em transições, em contra-ataque e em ataque rápido. É uma equipa forte no jogo aéreo, e os nossos laterais de facto não são muito fortes no jogo aéreo. Se calhar, houve um ou outro erro de posicionamento que nos fez sofrer o golo.

Vale a pena mexer no meio-campo?
Os que estão de fora têm a mesma qualidade dos que jogaram, por isso o Fernando Santos tem um lote muito bom para mexer na equipa, se quiser.

O que lhe pareceu a prestação do Ronaldo? Ele parece não estar muito satisfeito a avançado.
Não, ele já jogou nessa posição no Real Madrid, se calhar mais pela esquerda, mas não me parece que seja pela posição. É óbvio que o Ronaldo é sempre o centro das atenções para a equipa adversária, ou seja, vão dar-lhe poucos espaços para que não se mostre, mas ele fez um bom jogo. Às vezes pode não dar muito nas vistas, mas em termos de movimentação abre espaços para os colegas, arrastando os adversários, o que também é fundamental para a equipa. Mas não pode ser só o Ronaldo a resolver os problemas de Portugal. A seleção tem de jogar como uma verdadeira equipa.

Conhece a seleção austríaca?
Vi um bocado do jogo com a Hungria. De facto, esperava um bocadinho mais da Áustria naquele jogo, porque a Áustria nos últimos tempos tem vindo num crescendo, tal e qual como a Islândia. A Hungria acabou por ganhar inesperadamente. São estas seleções que por vezes criam problemas. Veja a França, que ganhou mas só marcou nos últimos minutos...

Lembra-se do último Áustria-Portugal, em 1995?
Então não me lembro... Sei que empatámos 1-1, com um golo do Paulinho Santos. Fizemos uma boa exibição, e nesse jogo até joguei como médio interior, quando normalmente jogava como ala. Lembro-me que o golo foi uma grande jogada individual do Paulinho Santos pela esquerda, tirando três ou quatro austríacos da frente num movimento para dentro. Foi um jogo difícil, mas foi um bom resultado fora de casa. Acho que não podemos pensar que a Áustria, por não ser habituée nestas fases finais, é uma equipa fácil, porque não é. Já tivemos essa experiência com a Islândia.

A seleção portuguesa dessa altura é comparável com a de agora?
Não, porque cada Euro, cada Mundial tem a sua história. Vão aparecendo jogadores novos, cada um na sua geração, e Portugal já é um habitué nas fases finais de Europeus e Mundiais, o que quer dizer que o nosso futebol está bom. Só nos falta mesmo um grande título, que nos fugiu em 2004, e até em 2000, quando fomos às meias-finais. Se calhar, é esse empurrãozinho que precisamos, ganhar uma prova para sermos cada vez mais respeitados. E mesmo assim Portugal é sempre uma equipa temível para todas as seleções, com excelentes jogadores a nível individual e formando uma grande equipa, que é o mais importante, funcionar como equipa. E de vez em quando viver de momentos de inspiração dos jogadores mais fortes, como o Ronaldo, de quem esperamos tudo.

Qual é a primeira recordação do Euro-96 que lhe vem à cabeça?
É o meu primeiro jogo, com a Croácia, no qual fui titular e fiz o cruzamento para o primeiro golo, do Figo. E o ambiente que se vive numa fase final de um Europeu, num estádio de Europeu...
Mexe muito com o jogador quando está a entrar em campo?
Sem dúvida. Todos os jogadores gostam de ter um ambiente bom à sua volta, com muita gente a apoiar. Em França, Portugal tem imenso apoio dos emigrantes, o que é bastante importante, porque os jogadores quando entram e sentem esse carinho têm sempre um momento especial, e isso mexe com o jogador.

Alguma vez ficou emocionado com o hino?
Fiquei, várias vezes. Oiço algumas pessoas às vezes a queixarem-se que há jogadores que não cantam o hino, mas o facto de não cantar não quer dizer que não o sinta. Mexe com qualquer jogador. É uma parte linda da seleção, que só vivendo se consegue perceber o quanto é especial.

E aguentar o estágio, é complicado?
Não é difícil, a maioria dos jogadores está já habituada a essas situações. O que se calhar há é aquele nervosismo miudinho na hora do jogo, nos últimos minutos antes de entrar. Mas, a partir do momento em que se entra para o aquecimento, a concentração é de tal forma grande que o foco fica todo no jogo.