Euro 2016

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Szeretlek Hungria

O país de Puskas nunca mais teve uma seleção de jeito. Mas neste europeu ganhou nas calmas à Áustria. O que é que costuma acontecer quando subestimamos os adversários?

Rui Gustavo

Este é Puskas, o grande jogador da Hungria que se naturalizou espanhol para fugir ao regime

ATTILA KISBENEDEK

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Uma vez conheci uns húngaros. Estávamos na Escócia a apanhar morangos e blackberries e tínhamos 18 anos. A Florian Rita e o Bogajdse Marcus ensinaram-me que na Hungria os apelidos vêm antes dos nomes próprios, que Hungria se diz Magyarország, a pior asneira começa por B e Szeretlek é a palavra mais bonita do dicionário. Que há o Buda e o Peste. E que a capital é linda. E que inventaram uma forma de domesticar cavalos. Eu sabia quem era o Meszaros.

Passámos duas semanas juntos e também falámos de bola, das grandes equipas que eles tinham nos anos 50 e 60 que não ganharam nada (jogos olímpicos não contam) e dos melhores jogadores, como o Puskas, que se naturalizaram espanhóis para ganhar dinheiro e fugir ao regime.

No final dos anos 80 o país estava a sair do longo inverno comunista (não é uma opinião: em 1956 foram invadidos pelos tanques soviéticos que mataram o primeiro ministro dissidente, Imre Nagy) e eles ficaram fascinados com o meu walkman da Technics, fingiram que gostavam da cassete dos GNR que eu levei e ficámos amigos. Era impossível não gostar daquele par e do país deles.

A antiga potência em decadência, sempre bela.

Era mais o que nos ligava do que o que nos separava. E claro, passei a seguir as equipas deles, as seleções deles, uma deprimência absoluta. Tão triste e trágico como um noturno de Chopin, que também teve de se naturalizar para poder tocar pela França.

Nós ainda fomos tendo o Futre e o Figo e agora o Ronaldo, mas eles nada. Há 30 anos que não fazem nada. O país evoluiu de uma democracia florescente para um regime nacionalista e retrógado. Nunca mais falei com a Rita e o Marcus.

Quando se qualificaram fiquei contente, quando ficaram no nosso grupo fiquei aliviado. O guarda-redes é gordo, velho e joga de pijama. O avançado Szalai esteve anos sem marcar um golo, não têm um jogador que se destaque, a equipa não é especialmente unida. Primeiro jogo e… dois golos à Áustria, vitória e um golo de Szalai, o tal avançado que não marcava golos. A Áustria de Alaba, o puto titular do Bayern e de Fuchs, o campeão inglês pelo Leicester. Eles conseguiram.

Uma equipa, vá, inferior à Islândia . No jogo de hoje torçam por nós Marcus e Rita. Eu vou estar mesmo por vocês quando jogarem com a Islândia. Desta vez talvez nos deixem ir juntos para os quartos.