Euro 2016

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Wiener Würstchen com pezinhos de coentrada

Após as entradas desapontantes no Europeu, Portugal e Áustria encontram-se hoje num desafio fulcral para a as aspirações de ambas (20h). Entre os adeptos dos dois, prepara-se a festa e o estômago

Tiago Oliveira

NICOLAS TUCAT

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“Cerveja e salsichas! Que outra forma há de ver jogos?”, pergunta Michael Riedmüller. É este o panorama de festa que o jornalista austríaco radicado em Portugal antecipa para a noite de hoje e para o encontro potencialmente decisivo entre a seleção das quinas e a Aústria.

Entre os dois países encontram-se algumas semelhanças, quanto mais não seja nos estados de alma. Qualquer coisa como euforia antes do início e apreensão após o primeiro jogo pode-se aplicar aos dois povos. Chegada a hora do prato principal, os ânimos já não são tão claros. “O jogo da Áustria com a Hungria foi das piores exibições que vi em alguns anos. Quando o torneio começou, não tinha dúvidas que íamos ganhar, mas agora...”

A viver por estas bandas há três anos, chegou aqui por causa da namorada e já conta com muitos amigos que encontraram força para “brincar depois de terça-feira.” Apesar de achar que os portugueses “têm mais responsabilidades” e “podem acusar a pressão”, o seu carácter analítico fá-lo apostar na vitória de Portugal. Já o coração não o faz perder totalmente a esperança na vitória. Se a paixão faz mudar de país, também pode destabilizar defesas.

Dividido por amor também vai estar David Grabner, um dos responsáveis por dois espaços austríacos em Lisboa (Kaffeehaus e Hansi), quando estiver em Paris a ver o jogo junto do sogro português. “Se empatássemos, não era mau. A minha mulher é que não ia ficar nada contente”, conta a rir. É o mínimo para acalentar ficar em prova e não perder o casamento. “Nos jornais, já éramos campeões europeus e agora estamos a lutar pela sobrevivência. Mas acho que vamos passar”, atira.

A opinião é partilhada pelo seu amigo de infância e parceiro de negócio, Cristoph Hubmayer. “São como dois animais feridos. Quem marcar primeiro, pode ter a vantagem”, confia. Vai ser “um jogo intenso” em que confessa não ser capaz de dar “preferência a um vencedor.” Adepto confesso de futebol e do Rapid de Vienna (nem sempre pela mesma ordem) espera que todos, austríacos e portugueses, vejam o jogo em animação e festa. Sempre sem esquecer as essenciais “salsichas e cervejas.”

Acreditar

De acordo com a secção consular da Embaixada Portuguesa em Viena, estão registados 3615 cidadões portugueses na Áustria e entre a comunidade a ansiedade era palpável. Mafalda Cardoso está a trabalhar desde o início deste ano no país e não tem dúvidas: “Eles dizem que vão ganhar a Portugal, mas eu não acredito. ”A engenheira civil planeia ver o jogo no ecrã gigante do Rathaus, em Viena, e revela que a “vitória é essencial”, quanto mais não seja porque não sabe como se vai “esconder dos austríacos com o cachecol de Portugal ao pescoço” se a turma lusa não lhe der uma alegria.

Proprietário de um dos mais conhecidos estabelecimentos portugueses na capital, o Lisboa Lounge, Hugo Silva já ‘educa’ os palatos austríacos com petiscos portugueses há dez anos (quando abriu o seu primeiro espaço, o Pessoa Lounge). “Os austríacos sabem que não são uma potência, mas estão muito entusiasmados”. Expectativas exageradas, a seu ver, porque “não existe a humildade necessária, como se viu na equipa da Islândia. A cultura tática também se vê nos adeptos.” Por isso, aposta num 2-0 com golos de Ronaldo e Quaresma.

No mundo dos centros de investigação, Miguel Nunes também já está em estágio, com provas científicas que apontam empiricamente para uma “ida aos quartos de final”. O jogo domina as conversas e, entre ele e o colega de casa austríaco, a “troca de bocas é diária.” Num sítio “onde a qualidade de vida é inacreditável”, as atividades culturais (“em doses industriais”) têm que ficar no banco por 90 minutos.

Pronto a dar música aos austríacos está Gabriel Antão, que toca trombone na orquestra sinfónica Tonkünstler Orchester. De forma saudável, porque os colegas nativos são “bastante amáveis e divertidos.” Ainda que o empate frente à Islândia “tenha sido um resultado inesperado”, a comunidade portuguesa está “muito confiante.” Para mais logo, a receita é simples: “explorar o nosso talento e vitória por 3-1. Rumo à final.” Está lançado o menu do dia.