Euro 2016

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A culpa é do Ricky

“O coração também respira” é uma coleção de histórias de ficção de Jorge Araújo, que são crónicas do quotidiano com gente e futebol lá dentro.

Jorge Araújo

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Portugal entrou desfalcado no jogo contra a Áustria. Os jornais e as televisões não deram a notícia, não sabiam de nada, a história estava trancada no bairro. Até à última hora, no café do Abel, ainda se pensava que Duarte podia dar o seu contributo à selecção. Mas o departamento médico, vulgo 112, teve a última palavra e, verdade seja dita, o veredicto não foi difícil - Duarte estava em coma etílico.

A culpa é do Ricky, um amigo que é jornalista e DJ. Fez anos na véspera. Quarenta anos. Foi uma festa bonita. A música escolhida a dedo, o mulherio à solta, bebida farta a preço de arraial. Duarte estava como peixe na água. Ainda por cima, a festa era na Barraca, antigo cinema da sua infância. Se a memória não o atraiçoa, chamava-se Cinearte. Foi lá que viu o primeiro Gianni Morandi, épicas fitas de índios e cowboys.

O problema do Duarte é que se deixou deslumbrar com tamanha oferta. Pensou, tal como Portugal logo após o sorteio, que trazia a taça para casa. Além do mais, as coisas corriam-lhe de feição, a loura que lhe caiu na sopa era um bilhete de lotaria premiado. Mas ele tem mais olhos do que barriga, também queria a morena, a gorda e a magra. Com cada uma, bebeu um copo, fumou um cigarro, dois dedos de conversa.

A festa parecia uma espécie de jogo de baliza aberta. Mas à medida que o tempo passava, a pressão aumentava, mais vale um pássaro na mão do que todos a voar, pensou. E escolheu a loura, só nunca imaginou o desfecho. O final havia de ficar para a história. Estava tão cansado, tão fumado, tão bebido, quando chegou a hora da verdade, o momento do penalti. Falhou.

Duarte ficou ferido de morte. O orgulho destroçado, foi para casa e mais não parou de encher o copo. Dar de beber à dor. A madrugada entrou pelo dia seguinte. A sua sorte foi o André lá ter ido buscar as chaves de um apartamento para alugar a um casal de franceses. Encontrou-o estendido no chão, mais para lá do que para cá. Foi ele quem chamou o 112.

Foi pena, uma lástima. Estava em grande forma, ainda mais, tem uma voz poderosa e todas as vozes são poucas quando toca a apoiar a selecção. Mas na vida, tal como no futebol, só faz falta quem está. No café do Abel depressa esqueceram a sua ausência. Estava lá o Vitorino e a sua infinita tristeza, a mulher de negro a acariciar o terço, o Almeida do talho despido da bata branca tingida de sangue, o professor Bambara. Estava também o André a servir imperiais ao pé-coxinho, o Isaías a exibir a sua nova tatuagem, o Silva, do outro talho do bairro. Até lá estava o velho advogado na reforma, desde a morte da mulher que ninguém lhe punha a vista em cima.

O jogo contra a Áustria foi fotocópia da noite do Duarte. Tudo parecia fácil, demasiado fácil, mas com o passar do tempo, os nervos à flor da pele, sofrer a bom sofrer. O único que parecia preparado era o Vitorino, há dias que sofria por causa da recaída da sua Marcolina. Depois do intervalo, já não sabia se sofria por causa de Portugal ou do fado da mulher.

E foi então que apareceu o penalty. O café ao rubro, o pessoal a cantar vitória, nunca se gritou tanto no estabelecimento do Abel. No meio da euforia, ninguém reparou que o professor Bambara aproveitava o momento para se dirigir à mulher de negro, aquela que acaricia o terço.

- Desculpe, qual é a sua graça?
- Maria – respondeu ela, com um sorriso envergonhado.

O café colado ao remate de Ronaldo. Mas, na hora da verdade, o melhor do mundo falhou. O penalty por cumprir. Não dá para acreditar, tudo lhe corre mal, se continuar assim, pode tirar o cavalinho da chuva, a bola de ouro já era. Resta esperar que esteja ferido de morte, o orgulho destroçado. Talvez assim, na próxima quarta-feira, seja capaz de nos dar uma grande alegria. A boa notícia é que Duarte já estará recuperado e ninguém se esquecerá de trazer a calculadora.