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As entrelinhas, a transição rápida e o contra-golpe de Jorge Jesus

O Expresso publica hoje a primeira de uma série de entrevistas em que a literatura se cruza com o futebol. A primeira conversa é com João Pombeiro.

Helena Bento

Nuno Botelho

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Houve uma altura em que jogadores, treinadores e presidentes de clubes faziam história de cada vez que falavam aos meios de comunicação social. Há aqueles ditos ultra-célebres, que ainda hoje gostamos de citar, como o “Prognósticos só no fim do jogo”, da autoria do ex-capitão do FC Porto João Pinto, que respondia assim a um jornalista que lhe pedira a antevisão de um jogo”, e a frase “Deixem jogar o Mantorras”, proferida por António Simões, antigo extremo-esquerdo do Benfica, que era então diretor-geral do clube das águias. Há aquelas que nos põem a rir com estudada discrição, como a de Mário Jardel, ex-jogador do FC Porto - “Jardel, como se sente no início deste grande jogo?”, pergunta-lhe um jornalista. E Jardel responde: “Nestes jogos, sobe-me a naftalina!”. E há outras ainda que são demasiado especiais para caberem numa qualquer categoria.

Destas, destacamos uma de Joaquim Lucas Douro de Jesus, mais conhecido por “Quinito”, de 1988. Então treinador do Sporting de Espinho, Quinito, que estivera dois anos no Kuwait, publica um texto no Record em que escreve: “Comecei a ler William Somerset Maugham e o seu ‘Exame de Consciência’ e, depois disso, criou-se em mim uma dúvida tremenda que tem a ver com o Belo e as coisas belas. Até aqui qualquer trabalho que fizesse era de uma beleza tão grande, tão grande, que me dava uma hemorragia de prazer. Fiz um exame de consciência. Estou incompleto. O que tinha de extrair de beleza nas outras equipas já fiz. Desse champanhe já bebi. É altura de pensar em champanhe de outra categoria porque penso que também sei beber nessas grandes salas onde se toca Bach e outros grandes compositores.”

Hoje em dia, os exemplos são menos. Temos o caso (óbvio) de Jorge Jesus, atual treinador do Sporting, e de Manuel Machado, treinador do Clube Desportivo Nacional, embora este último se tenha distinguido por ter trazido ao futebol “um discurso mais escolástico que era, ao mesmo tempo, um pouco pimba-universitário”, diz João Pombeiro, que foi jornalista da Grande Reportagem, editor na Notícias Sábado (revista do Diário de Notícias e do Jornal de Notícias) e editor executivo da revista Ler. Atualmente, organiza a revista ao vivo Cabide.

Autor de livros como “Futebol e Rock n’roll” (2007), que resultou de uma conversa entre o músico Sérgio Godinho e o jogador João Moutinho, moderada pelo autor do livro, e “30 anos de mau Futebol” (2009), uma coletânea das mais extravagantes frases do futebol português nos 30 anos anteriores à data de publicação de livro, João Pombeiro lembra as últimas décadas do século XX, anos 70 e 80, principalmente, mas também início dos anos 90, em que “os futebolistas, uma vez que não eram muito aconselhados por assessores nem por empresas de comunicação, tinham um discurso mais desbragado”. “E quando eu digo desbragado, era mesmo desbragado, quer de treinadores, quer de jogadores”, sublinha. Há quatro exemplos que lhe vêm de imediato à cabeça – Quinito, “que citava frequentemente escritores”, Raul Águas, Artur Jorge e o ex-capitão do FC Porto João Pinto.

Hoje em dia, diz João Pombeiro, o discurso do futebol “é mais redondo”. “É assim, por exemplo, nas conferências de imprensa. Treinadores e jogadores andam todos à volta do mesmo, como se fossem hamsters à volta de uma rodinha. E quando algum deles tenta fugir a isso, é visto quase como um escândalo”, diz. “Às vezes é preciso deixar os futebolistas mais à vontade para que as suas declarações não sejam sempre mais do mesmo”, acrescenta. Para o ex-jornalista, isto deve-se não aos jornalistas de desporto, mas “à forma como as coisas estão montadas”.

Era esse discurso mais “desbragado” que servia de “matéria-prima aos cronistas e escritores de então”, diz João Pombeiro. Fernando Assis Pacheco foi um deles e foi, muitos dirão, um dos mais apreciados. Jornalista, poeta, romancista, tradutor e letrista, Assis Pacheco foi um observador exímio do seu tempo, atento às questões políticas, sociais, culturais. “Memórias de um Craque”, publicado em 2005 pela Assírio e Alvim, reúne dezenas de crónicas publicadas por Assis no jornal Record entre 22 de abril e 25 de novembro de 1972. “Sabe-se que o futebol teve lugar de relevo no trabalho de jornalista de Fernando Assis Pacheco: reportagens, comentários, colunas regulares, entrevistas... e estas ‘Memórias de um Craque’, decerto o mais característico do largo conjunto. Na verdade, valerá menos como pequeno livro sobre futebol do que enquanto testemunho da importância do futebol na infância: fragmento de autobiografia cruzado com narrativa de episódios infanto-juvenis na Coimbra dos anos 40”, escreve Abel Barros Baptista no prefácio a essa edição.

FRANCISCO LEONG

João Pombeiro diz que são esse tipo de histórias, “histórias pessoais” ou com um cunho pessoal, como as contadas “de forma brilhante” por Fernando Assis Pacheco, Manuel António Pina ou Álvaro Magalhães, que fazem falta atualmente. “Hoje em dia, está muito na moda o comentador enciclopédico, aquele que mais campeonatos e resultados e datas consegue memorizar. Também precisamos disso, é verdade, mas precisamos ainda mais de alguém que domine a língua de uma forma brilhante e nos consiga contar histórias diferentes, que não se fiquem simplesmente pelo carro novo que o jogador comprou ou pelo que dizem os seus olhos”. O ex-jornalista reconhece que “o mundo mudou e as histórias de antes não serão certamente as mesmas de hoje” - “já ninguém joga na rua com duas pedras”. Mas se a escrita for irrepreensível, tão irrepreensível “que dá vontade de bater naquela pessoa por ela escrever tão bem”, ou, se não quisermos optar por metáforas violentas, simplesmente “recortar e guardar aquela página”, a história fará o seu próprio caminho.

João Pombeiro chama ainda a atenção para o “discurso burocrata e tecnocrata” que invadiu “quer a política, quer o futebol”, sendo muito utilizado pelos comentadores televisivos. “Entrelinhas? Jogar pelos corredores? Fase de transição? Porque é que dizem fase de transição e não contra-ataque? Tudo isso são expressões que a crónica não quer. Pelo menos o Jorge Jesus dizia contra-golpe. É uma expressão mais literária!”

A literatura é outra coisa”

E quem fala em crónica futebolística, fala também em romance. Embora reconheça que não é a pessoa mais indicada para falar sobre o tema romance de futebol – ou o romance com futebol dentro ou o romance que traz o futebol para o universo da literatura –, João Pombeiro diz que este desporto, mesmo com as mudanças radicais de que tem vindo a ser alvo de há uns anos para cá, é tema para grandes romances. “Tem um lado de paixão, de fé, de ritual, que se expressa nas idas ao estádio; um lado de mobilização quase militar, que vemos, por exemplo, na campanha para o campeonato europeu que está a decorrer. Religião, guerra, paixão. O futebol tem tudo isso. Bom, só falta o sexo, se estiver ligado à paixão. Estão aqui todos os elementos para grandes romances”, diz o ex-jornalista.

Depois, claro, há a parte da construção ficcional, “e isso já é outra coisa”. “É por isso que a literatura é outra coisa também”. “Por exemplo, se for José Rodrigues dos Santos a escrever, ele que encara a literatura de uma forma diferente da minha - e digo isto com todo o respeito, sem qualquer sentido pejorativo – ,sei que ele vai utilizar uma personagem para descarregar informação sobre futebol, mas nunca vai escrever um bom romance sobre futebol. Ele e outros. Porque a literatura é outra coisa”.