Euro 2016

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O chapéu do Rui Costa e o meu cachecol da Irlanda

"Na Gaveta" de hoje recorda aquele golo do número 10 aos irlandeses, em 1995

Adriano Nobre

Shaun Botterill

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Dizem-nos os arquivos da UEFA que o jogo terminou 3-0. Mas onde o jogo terminou verdadeiramente foi no monumento de Rui Costa, aos 59 minutos, com aquele remate em forma de chapéu. 1-0. Estavam abertas as portas do Europeu. E no fim ganhei um cachecol da Irlanda.

Hélder e Cadete também marcaram a seguir, mas aquele pontapé cheio de classe de Rui Costa foi o jogo todo. Foi o 1-0, o 2-0 e o 3-0, o carimbo no passaporte para o Euro96, a maioridade de uma 'geração de ouro' que chegava pela primeira vez ao palco dos grandes.

Não foi um Portugal-Irlanda. Foi o jogo “do golo do Rui Costa”. E estávamos lá todos nessa noite. Uns metaforicamente, via RTP. Outros literalmente, nas bancadas do antigo Estádio da Luz, um pouco mais encharcados.

Para a geração que cresceu com o Rui Costa, o Figo, o Couto, o Baía ou o Paulo Sousa, esse jogo, vivido no estádio, está inevitavelmente entre as grandes memórias futebolísticas que guardamos. Por causa daquele pontapé, por causa da vitória, do apuramento e da chuva incessante. Mas também por causa da Irlanda.

Ou, melhor, por causa dos adeptos da Irlanda: pelo que eles beberam, cantaram, beberam, dançaram, beberam e celebraram. Antes, durante e depois do jogo, nas ruas de Lisboa e nas bancadas do estádio. Mesmo perdendo – como acabou por acontecer nessa noite e como acaba sempre por acontecer à Irlanda –, o que os motiva sobretudo é a festa. E para os melhores adeptos do mundo, não terem uma seleção à sua altura é apenas um detalhe.

Lembro-me dessa noite, e desses adeptos, sempre que a televisão nos faz entrar pela sala aquelas hordas de estúpidos que vestem equipamentos da Rússia, da Croácia ou da Inglaterra e que se dizem fãs de futebol. Não são. Aqueles que são notícia são simplesmente pessoas estúpidas a fazer coisas absurdas. Não é gente que vibra com o jogo, é gente que se diverte com a sua própria acefalia. Por isso me irrita quando vejo, leio ou ouço notícias que os referem como “adeptos” de determinado país.

No fim daquele Portugal-Irlanda de 1995, já no interior do Metro do Colégio Militar, entalado entre os milhares de adeptos das duas equipas, sem cordões de segurança, polícias ou stewards a separar os vencedores dos eliminados, um dos adeptos irlandeses trocou comigo de cachecol. Guardo esse cachecol até hoje. Porque é uma recordação “do jogo do Rui Costa” e um exemplo de classe ao nível daquele pontapé do nosso 10.

Aos estúpidos que têm sido notícia seria difícil explicar isto.