Euro 2016

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É claro que não foi penálti

"Na Gaveta" de hoje fala sobre os "ses" de 1984 e de 200

Adriano Nobre

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Quando falamos de Campeonatos da Europa e da participação portuguesa nessas provas, é uma questão de tempo até que se fale da mão, aquela mão, o penalty que não foi, que não era, porque não era mão. E porque mesmo que fosse mão, se fosse esse o caso, então não era intencional e só seria penalty por ser na área portuguesa e por ser a mão do Xavier. “Se fosse na área francesa e se fosse a mão do Thuram, o árbitro não marcava.”

O “se” é amiúde o argumento mais cretino numa argumentação, qualquer que seja o assunto em causa. Mas consegue ser também a pedra basilar de boa parte da discussão sobre futebol em Portugal, seja ela centrada no “se” que se fez história ou no “se” que antecipa o que lá vem. Porque podemos perceber pouco de tática ou de pressão alta, mas todos sabemos que no futebol a diferença entre ganhar ou perder está muitas vezes nos pequenos pormenores que se condensam em “ses”. “Se o Ruiz não tem falhado aquele golo...”, é outro exemplo recente.

Mas foquemo-nos na seleção. E na angústia que nos invade no momento do penalty.

É claro que foi penalty. Custou, doeu, aquela seleção era do melhor que um adepto pode guardar na memória e temos todos a noção do que jogámos, do que fizemos e do “se” que poderíamos atingir “se” tivéssemos ganho à França nessa meia-final do Euro-2000. Mas foi penalty. Foi mão, foi na área, foi uma tontice, foi intencional. Penalty, portanto.

Chorámo-lo durante muito tempo, porque também somos mestres na arte do “isto só a nós”. E nas teorias do “somos um país pequeno”, como clamou Figo no fim desse jogo. Houve protestos, alguns mais exagerados, ainda no relvado, e também castigos: Paulo Bento (6 meses), Nuno Gomes (8 meses) e Abel Xavier (9 meses) foram suspensos pela UEFA. Uma vergonha, sentenciou o adepto comum, ajeitando a casca de ovo na cabeça.

E “se” os “ses” nos favorecessem? Já aconteceu. Mas parece ter menos fado.

Exemplo disso é o facto de a avalanche de glorificação da nossa prestação lusa no Euro-84 remeter frequentemente um pequeno pormenor para nota de rodapé: é que Portugal só se qualificou para essa fase final graças a uma vitória por 1-0 sobre a URSS, no Estádio da Luz, que resultou de um penalty em que Chalana sofre um toque na faixa da esquerda da segunda circular e aparece estatelado na grande área dos soviéticos.

Nesse dia não “fomos pequenos”. Não nos aconteceu “só a nós”. Nem valeu a pena pensar no que teria acontecido “se”. É claro que não foi penalty. Mas “o futebol é isto”. E se os soviéticos não perceberam isso é porque eram uns choramingas.