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Jamie Vardy: Cerveja, agressões, pulseiras eletrónicas e golos

Em Inglaterra diz-se que está na hora de trocar Kane por Vardy. A vida dele é uma história em que a realidade ultrapassou a ficção de um conto de fadas.

Pedro Candeias

James Vardy comemora o golo marcado ante o País de Gales, na 2ª jornada do grupo B

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Cada um tinha o seu preferido, mas o meu eram dois e nenhum deles era o Tó Madeira. Ao Tó, que me apontavam no ecrã do PC 486 DX2, eu contrapunha com o Stern John, um tobaguenho do Nottingham Forest, e o Robbie Keane, um irlandês do Wolverhampton. Punha-os a jogar um ao lado do outro, com um número dez nas costas de ambos; depois, quatro médios e três defesas.

O Stern John e o Robbie Keane eram máquinas dentro da máquina, e marcavam-me os golos que eu precisava para os títulos que eu ganhava. Não jogavam no Real Madrid, Barcelona, Bayern de Munique ou no Manchester United, era fácil comprá-los com pouco dinheiro, e quando isso não era suficiente havia sempre aquela batotazinha tolerável entre a malta amiga na pré-época.

No mundo virtual do Championship Manager, laboralmente ultraflexível, eu podia mudar de clube e de país quando quisesse que aqueles dois iam comigo para todo o lado – o único senão era que eu não os via em lado algum na vida real. E isso era uma chatice, porque na tribo dos que jogavam CM, todos queriam que o CM tivesse razão, porque isso validava-nos enquanto olheiros, observadores, diretores desportivos e treinadores.

Convém não esquecer que na idade da pedra da web, o CM era o nosso Google, e nós competíamos para descobrir o jogador mixuruca que jogava num clube mixuruca, mas que tinha grande potencial e potencial para um grande porque as estatísticas eram incríveis.

Se o Jamie Vardy jogasse nos anos 1999-2000, estaria no caderninho de apontamentos ao lado do computador em que eu rabiscava a tática e os reforços. Não o teria comprado ao Stocksbridge Park Steelers, um clube que nem profissional é, mas presumo que o teria visto no FC Halifax Town ou no Fleetwod Town. E quase de certeza que o teria apanhado antes de o Leicester o apanhar e fazer dele a melhor história da história mais incrível do futebol moderno. Teria um pequeno problema pela frente, que era convencê-lo a trocar o Norte de Inglaterra por Portugal, mas no mundo virtual os futebolistas não tinham vontade – e, se tivessem, nós tínhamos os nossos truques.

No mundo real seria mais difícil, porque Jamie Vardy é um triunfo da vontade sobre um mundinho cheio de truques e de manhas.

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O Sheffield Wednesday disse-lhe que era pequeno demais para jogar futebol. Jamie Vardy teria de procurar a vida noutro lugar se quisesse ser futebolista, mas ele não foi para muito longe. O Stocksbridge fica em Sheffield onde ele nasceu e onde estavam os amigos e a família. Jamie fez os testes, passou e ficou. Estávamos em 2003.

Jamie tinha 16 anos e fez o resto da sua formação enquanto jogador num sítio que não tinha escolinhas e centro de treinos. Logo ali, Vardy ficou condicionado pelo contexto. No futebol, se quiseres ser alguém, tens de começar num clube que tenha formação e professores encartados que te ensinam a perceber o jogo. Mas era na lama e no futebol não profissional que Vardy estaria condenado a correr nos próximos anos. E ele corria muito.

Era uma combinação estranha, de velocidade e de resistência, que lhe permitia derrotar os colegas nas corridas de 100, 200 e 1.500 metros no liceu. Só não dava para fintar a Justiça, contra a qual bateu de frente depois de ter agredido uns quantos para defender um amigo surdo.

No último ano do Stocksbridge, em 2007, Jamie Vardy jogou com uma pulseira eletrónica no calcanhar dentro das meias, e forçado a um recolher obrigatório. Foram algumas as vezes em que o treinador o substituiu para chegar a tempo a casa. Este era o tempo em que ganhava 30 libras por encontro, em que trabalhava em part-time numa empresa de próteses, em que se alimentava nas roulottes de fast food.

Tinha sido abençoado com um corpo que não engorda (73 kg) e só por isso resistiu ao tempo. Do Stocksbridge pulou para o FC Halifax Town e do Halifax Town para o Fleetwood Town. Eram os golos que o estavam a levar longe: 27 em 37 jogos pelo Halifax, 31 em 36 jogos pelo Fleetwood.

Não é fácil marcar golos nas divisões amadoras e secundárias e ele marcava-os quando nada previa que os fizesse.

Vardy é relativamente baixo (1,78m) para um ponta de lança, portanto não era no corpo a corpo que ele derrotava os adversários. E Vardy é relativamente mau jogador, no sentido em que não é habilidoso nem tecnicista, portanto não era com fintas que ele contornava os adversários. O que Vardy tinha e tem é coração e instinto de sobrevivência, como se estivesse a lutar pela vida em cada lance que disputa. Isto é uma coisa que as escolinhas não ensinam.

Ao Halifax Town começaram a chegar ofertas, mas acabou por ser o Leicester a comprá-lo em 2012. Nigel Pearson, então treinador dos “foxes”, era de Sheffield tal como Vardy, e os dois chegaram a um entendimento. O Leicester, da II liga de Inglaterra, pagou um milhão de libras por um jogador de um clube não profissional e Vardy acusou o toque – marcou apenas cinco golos, foi-se abaixo, pensou em desistir do futebol. Convenceram-no do contrário e na época seguinte fez 16 golos, e foi escolhido futebolista do ano pelos jogadores da segunda Liga. Nessa temporada, o Leicester subiu à Premier League e com ele levou Jamie Vardy.

A velhice é um mito

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Para trás tinham ficado todas as dúvidas e todos aqueles jogos nos relvados pantanosos. Jamie Vardy conseguira o impensável e podia dar-se por satisfeito: o Leicester propusera-lhe a renovação de contrato, até 2018, e ele estava na Premier League.

Aos 28 anos, a coisas não estavam mal, ainda que os golos não aparecessem tanto como dantes, mas isso nem era tanto culpa dele mas do treinador. Nigel Pearson sabia que tinha em Vardy um tipo inquebrável e implacável e por isso aproveitou-o para outros trabalhos, mais defensivos, como extremo ou até médio. O Leicester conseguiu manter-se na Premier League, com uma segunda volta incrível, e Jamie Vardy deu nas vistas pelos quilómetros que corria. Era um utilitário e não um topo de gama, mas isso não lhe importava. Para quem vinha de onde ele vinha, jogar contra Fàbregas, Diego Costa, Özil, Rooney e Agüero era a gratificação suprema, uma pequena vingança contra quem dissera que ele não estava à altura da coisa. O melhor estava para vir.

Nos primeiros treinos, em 2015-16, Claudio Ranieri não acreditou no que viu em Vardy: um avançado móvel, rápido e incansável, que conseguia manter a cabeça fria na cara do guarda-redes. Não era um prodígio técnico, e o italiano sabia uma ou duas coisas sobre craques, porque já treinara (e perdera) no Chelsea, na Juventus, na Roma ou no Valencia.

Ranieri ouvia o que se dizia sobre ele: que estava velho para ganhar títulos. E Vardy também estava a bater os 30 e chegara tarde à Premier League. Um e outro, com histórias diferentes sobre a velhice, entenderam-se à primeira. E fez-se história.

Vardy quebrou o recorde de Ruud van Nistelrooy ao marcar consecutivamente nas 11 primeiras jornadas. Roy Hodgson convocou-o para a seleção inglesa. Vardy começou trocar tweets com van Nistelrooy e membros dos One Direction. A Nike passou a patrociná-lo. As redes sociais ficaram inundadas com vídeos dele e dos seus colegas do Leicester. O Leicester foi campeão inglês e ele marcou (para já) 22 golos.

A realidade ultrapassou a ficção neste conto de fadas. E o Football Manager atualizou o seu perfil.

*Este artigo foi publicado no Expresso Diário de 3 de maio

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